Análises

Resident Evil 6

Racoon City, foi o palco para o nascimento de uma grande série, chamada Resident Evil. Em 2005, a Capcom causou furor ao mudar a formula da serie com Resident Evil 4, dando-lhe mais acção e menos survival horror. Isto ficou ainda mais evidente em Resident Evil 5. Agora, a Capcom pretende conquistar o maior numero possível de fãs, ao dar vários estilos de jogo num só pacote. Se na teoria, tinha tudo para resultar, na prática, nem por isso.

A história de RE6, decorre em 2013, quatro anos após os acontecimentos de Resident Evil 5. Devido à proliferação do vírus e de ataques bioterroristas, o mundo está num completo caos. Este, é o mote para a existência de três campanhas principais e uma extra, em que os protagonistas são algumas das personagens mais conhecidas da série. Por vezes, a história parece demasiado forçada e mal escrita, ficando com a sensação de que determinadas coisas acontecem, apenas porque sim, e não porque têm relevância para a narrativa.

Falando das campanhas, a do Leon, é a mais clássica, ou pelo menos, com um estilo semelhante ao visto em Resident Evil 4. Tem um ritmo mais lento tradicional dos survival horror misturada com alguns momentos de acção. A campanha extra, a da Ada Wong, também é algo deste género e acrescenta um pouco mais de variedade. Já as outras duas campanhas, a do Leon e do Jake, têm um maior foco na acção. Devo dizer que, indiscutivelmente, a campanha do Chris é a pior, chegando a parecer um genérico shooter. A campanha de Jake, embora não seja particularmente boa, tem alguma inspiração em Resident Evil 3, ao apresentar um inimigo que nos persegue ao longo dos níveis.

De um Resident Evil, espera-se um bom ambiente, capaz de criar tensão e com um bom leque de inimigos. No que toca ao ambiente e à capacidade de criar tensão, depende da campanha em questão, mas Resident Evil 6 apresenta algumas boas ideias, principalmente na campanha do Leon. Quanto aos inimigos, não os achei particularmente interessantes, assustadores ou desafiantes.

Graficamente, as personagem são detalhadas, incluindo as suas expressões faciais. Já os cenários, não são tão bons quanto o desejado, apresentando texturas de baixa resolução. Embora Resident Evil 6 apresente um bom uso da iluminação e tenha muito pouco screen tearing, acho que no geral, Resident Evil 5 é um jogo melhor conseguido a nível gráfico.

Já no departamento sonoro, o voice acting é geralmente bom e credível, o que é um feito, dada a existência de alguns diálogo mal escritos. A música acompanha bem os diferentes eventos e set pieces, e os efeitos sonoros, também eles são bastante bons.

Dada a mudança de estilo efectuada na série e a importância que a componente acção tem em Resident Evil 6, a Capcom tinha obrigatoriamente que melhorar a jogabilidade e implementar sistemas novos na série. Pela primeira vez, existe a possibilidade de andar e disparar ao mesmo tempo. Isto é essencial dada a quantidade de inimigos existentes. Além disto, também existe um cover system. Mais uma vez, tendo em conta certos inimigos, é algo bem vindo, embora o jogo não seja propriamente um cover shooter. Por último, e embora não seja uma novidade na série, temos a possibilidade de escapar aos ataques através de um desvio.

Quem normalmente joga third-person shooters, conhece bem estes sistemas, e certamente, que não vê isto como algo propriamente novo ou revolucionário. Isto só realça a ideia de que a certa altura, a série parou no tempo, pois estes sistemas já existem desde 2006 (de forma mais evoluída), e só agora, faz parte de um jogo Resident Evil. Atenção, dado estilo que a serie adoptou, estes sistemas são bem vindos, no entanto, não só já deviam ter sido implementados no jogo anterior, como foram mal implementados em Resident Evil 6, sem falar de como a Capcom não inclui um tutorial de como executar certos movimentos. O jogo tem a presunção de assumir que o jogador sabe tudo o que precisa sem ser informado da existência de determinados movimentos.

Mas o meu principal problema para com o jogo, tem a ver com a câmara, que por defeito, está demasiado próxima da personagem. Isto é ainda mais evidente ao apontar e disparar. Eu perdi conta ao numero de vezes que fui atacado por um inimigo que ficou tapado pela minha personagem e como tal, não vi. Também é demasiado frequente, principalmente na campanha do Leon, tropeçar em inimigos deitados no chão, porque simplesmente, não existe visibilidade suficiente para ver o que me rodeia.

A câmara, também tem um excesso de movimento, semelhante ao visto no Darkside Chronicles, embora não tão pronunciado. O que também não abona a seu favor, é o facto de o jogo retirar a câmara do controlo do jogador nas piores situações possíveis. Noutras vezes, faz o oposto, não mostrando ao jogador, a existência de um perigo eminente, resultado em algumas mortes frustrantes.

Felizmente, a Capcom teve em consideração o feedback dos jogadores, e a câmara de jogo, deverá ser melhorada numa actualização a ser lançada em Dezembro. Esta actualização irá dar ao jogador a possibilidade de personalizar a câmara e o zoom. Nessa altura, estarei cá para voltar a pegar no jogo e ver o impacto que esta actualização tem na jogabilidade. Mas se este tipo de problemas pode ser corrigido com uma actualização, há outros problemas que não podem ser resolvidos desta forma. Um desses problemas é o desenho dos níveis.

Normalmente, nos shooters ou até mesmo nos survival horrors, o jogo subtilmente guia o jogador, por um caminho pré definido de forma a desencadear a próxima sequência de eventos. Se for bem feito, até chega a dar uma falsa sensação de liberdade ou escolha. Resident Evil 6 falha neste aspecto. Há sempre um objecto, nem que seja uma simples cadeira deitada ou uma caixa de cartão, que não deixa a personagem passar por certo sítio. Ou então, há sempre um acontecimento que bloqueia determinado caminho deixando outro aberto. Se na realidade, os cenários parecem ser grandes e parecem oferecer alguma exploração, na verdade são lineares; são apenas longos corredores. Isto também realça o problema da câmara acima mencionado, pois certos cenários, em conjunção com uma câmara má e certos inimigos, retira grande parte da diversão que o jogo poderia oferecer.

Ao contrário dos jogos anteriores, a personalização das armas foi retirada. Cada personagem, começa com um pré determinado conjunto de armas. Em vez de evoluir ou apanhar armas progressivamente mais poderosas, existe um sistema de Skills. Este sistema, permite por exemplo aumentar o poder de fogo de determinada arma, melhorar os ataques físicos ou aumentar a quantidade de munições que cada inimigo deixa. Pessoalmente, preferia o antigo sistema de melhorar e personalizar as armas, mas este sistema de Skills, acaba por funcionar bem.

Um outro aspecto importante de referir é a falta de puzzles nas campanhas principais. Em contra-partida, os Quick Time Events não só marcam presença, como são uma constante ao longo do jogo, chegando ao ponto de a sua utilização, ser ridícula, como por exemplo para abrir uma porta.

Mas nem tudo é mau. O jogo é composto por quatro campanhas, sendo que elas se complementam e por vezes, cruzam caminho. O ter de repetir certas zonas que já tínhamos feito com outra personagem, não é algo positivo, mas ainda assim, são campanhas com uma boa duração. Cada uma das três campanhas principais, dura cerca de seis horas, enquanto que a campanha extra, é um pouco mais curta, durando cerca de três horas. Em termos de conteúdo e longevidade, a Capcom acertou em cheio, proporcionando um jogo com bastante replay value.

Para aumentar ainda mais a longevidade, o modo Mercenaries está de volta. Este modo, pede ao jogador que vença o maior numero de inimigos antes que o tempo esgote. Diria que este será o modo que irá ocupar o jogador a maior parte do tempo, e é um modo que se joga bastante bem, para além de ser divertido.

A Capcom investiu muito em Resident Evil 6, não só para elevar a qualidade da série a outros patamares, como também para bater de igual para igual com outros shooters. No entanto, o resultado, é apenas uma mistura de vários estilos com uma jogabilidade imprecisa, chegando por vezes, a ser genérico. O problema que a série defronta, não é a sua mudança de estilo, mas sim o querer incorporar demasiado elementos ao mesmo tempo. Custa-me dizer isto, pois esta é uma das minhas séries preferidas, mas Resident Evil 6, é uma mera sombra do que a série já foi em tempos.

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