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Xbox One: uma nova geração….de problemas

A Microsoft apresentou a sua nova consola no passado mês de Maio, e desde então, a Xbox One esteve debaixo de fogo devido a “algumas” políticas pouco amigáveis para o consumidor. A própria apresentação já não tinha correspondido às expectativas pois, focaram-se em demasia em algo que não deveria ser o principal de uma consola de jogos. Afinal de contas, se o objectivo é apresentar uma consola, então que mostrem jogos. Não que fosse necessário mostrar o catálogo inteiro, mas teria ficado bem mostrar mais do que dois trailers e passar a bola a duas editoras para fazerem publicidade aos seus novos motores de jogo.

Seja como for, e para complementar, a falha de comunicação logo após a apresentação da consola e a constante necessidade de ter de explicar detalhadamente as suas políticas, não têm contribuido para uma boa imagem da Xbox One.

Graças a estas falhas, muito se tem falado e até foram criadas campanhas para tentar que o DRM não seja implementado nas novas consolas (tanto na Xbox One como na PS4). Ontem, a Microsoft decidiu publicar um novo FAQ referente às políticas de conectividade, licenciamento e privacidade. Se a Microsoft esteve realmente a ouvir o feedback, então, não esteve com atenção.

Tendo em conta o trajecto escolhido pela Microsoft para a Xbox 360 nos últimos anos e o foco que a Xbox One terá em conteúdo televisivo e em aplicações, não é de surpreender a implementação de tais medidas. Contudo, estas medidas retiram não só a liberdade do consumidor, como desvirtuam o conceito de uma consola. Na prática, com a Xbox One, a Microsoft deixa de vender produtos, para passar a vender licenças. Ao comprar um jogo, o consumidor está a assinar um contracto com a Microsoft, em que confirma que o jogo é apenas para uso próprio, e que para o vender, terá de se submeter a certas restrições.

Por exemplo, para se poder vender um jogo da Xbox One a um particular, só o podemos fazer após essa pessoa estar na nossa friend list por pelo menos trinta dias. O jogo ficará depois bloqueado à conta de quem o comprou.

Se o quiserem vender a lojas, só o poderão fazer em lojas certificadas pela Microsoft, nomeadamente, às lojas de retalho principais (GAME, Gamestop, etc). Se à primeira vista não existe grande problema nesta medida, na realidade significa um maior controlo sobre o preço dos jogos usados. Isto significa também, que as lojas, as editoras e a Microsoft irão lucrar várias vezes pela venda do mesmo artigo. A consequência disto, para além de criar problemas às lojas independentes, é o aumento de preço dos jogos usados.

Talvez como consequência do barulho que se fez pela internet fora, a colecção de jogos poderá ser partilhada com até dez familiares. No entanto, esta feature (mais uma vez) não foi devidamente explicada, sugerindo que foi algo implementado à ultima hora para apaziguar os ânimos, ou que a própria Microsoft ainda não sabe bem como implementar.

Xbox_One_artigoSe inicialmente existiam dúvidas, agora, foram dissipadas. A Xbox One irá necessitar de se conectar à internet a cada 24 horas para verificação. Se fizerem log in noutra consola que não seja a vossa principal, então o tempo de check in será reduzido para uma hora. Mas estejam descansados que, se o check in falhar por falta de internet, vão poder continuar a ver televisão.

Sarcasmo à parte, a necessidade de conexão à internet para verificação se estão a jogar na vossa consola com os vossos jogos, significa que um dia, quando a Microsoft fechar os servidores, vão ficar sem acesso aos jogos que compraram, sejam físicos ou digitais e que a consola se transformará num pisa-papéis. Por esta razão, existe a tendência de usarem o Steam como justificação da implementação de DRM numa consola. No entanto, a comparação é descabida, nem que seja por se comparar dois ecossistemas bem diferentes.

O Steam é um serviço presente numa plataforma aberta. Isto significa que o consumidor tem várias opções na altura de comprar um jogo, seja em formato físico ou em formato digital. Depois, existem também as várias promoções em jogos PC, algumas delas pouco tempo após o lançamento de um jogo. Já para não falar de que os jogos PC são logo à partida mais baratos que as versões consola. Como bónus de ser uma plataforma aberta, isto permite também o uso de mods, alguns deles bastante úteis a ponto de melhorar a experiência de jogo, como por exemplo o DSfix para o Dark Souls.

Numa plataforma fechada, como a Xbox One, e onde o fabricante quer ter total controlo sobre o preço dos jogos (novos e usados) e sobre o que o utilizador faz com eles, não vai existir qualquer razão para que os preços sejam competitivos. Aliás, basta passar pelo Games On Demand para constatar os preços praticados nos jogos para a Xbox 360, e como tal, dificilmente isto será alterado na Xbox One. Por outras palavras, todos os aspectos negativos do Steam, mas sem nenhuma das suas vantagens.

Numa altura em que o mercado digital continua a ter cada vez mais importância, é normal que o esforço sobre o que é digitalmente oferecido seja maior. No entanto, ao transformar um hobby que sempre foi simples e que sempre teve um espírito de camaradagem entre os utilizadores em algo tão desnecessariamente complexo, estão apenas a criar uma maior resistência para que o consumidor desista de vez deste hobby. Se antes era possível emprestar um jogo a um amigo sem qualquer restrição, a partir de agora, deixa de o ser. Se antes, um utilizador podia vender um jogo com o qual ficou desiludido ou já não tem interesse para financiar uma nova compra sem grandes problemas, agora só o pode fazer com a permissão da Microsoft.

A evolução é sempre bem vinda, desde que não crie complicações desnecessárias, o que não é o caso. Agora, a bola está do lado da Sony. Com o feedback que tem havido em torno destas questões, tem tudo para fazer algo mais amigável do consumidor. Se efectivamente der meia volta e seguir os passos da Microsoft, então, será o fim das consolas como as conhecemos. E se chegarmos a esse extremo, cabe apenas ao consumidor votar com a carteira e recusar suportar tais medidas venham de que marca vierem.

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