Análises

The Wonderful 101

Hoje em dia gosto de aproveitar as manhãs de fim-de-semana para dormir até mais tarde, mas quando era criança era o primeiro da casa a acordar e ia directo para a frente da TV ver desenhos animados e claro está, os Power Rangers. Agora mais velho já não brinco com bonecos dos Power Rangers, mas com o The Wonderful 101 ando lá perto.

O lendário criador Hideki Kamiya baseou-se mais uma vez no seu amor pelas séries Tokusatsu como Kamen Raider e Super Sentai (que deu origem aos Power Rangers) e filmes de culto como Godzilla e criou um jogo de acção onde controlamos uma equipa com fatos coloridos, poderes espalhafatosos e muitos robôs gigantes.

xHJJrkjO estilo Tokusatsu pode ser semelhante ao Viewtiful Joe, mas a jogabilidade empresta partes de Okami e Bayonetta, fazendo também lembrar Pikmin, o que não quer dizer que seja uma amálgama disforme de influências, muito pelo contrário, é um jogo único e que vive dos seus próprios méritos e identidade.

Em The Wonderful 101 controlamos os Wonderful 100 (o 101º somos nós!), um grupo de super-heróis que através de alta tecnologia consegue-se juntar e transformar-se em armas gigantes. Através de um desenho feito no ecrã do gamepad ou com o analógico direito, podemos criar um punho, uma espada, um martelo ou muitas outras armas, armas essas feitas de pessoas caso não tenha sido claro. Quanto maior o desenho, mais heróis usamos, maior a arma e maior o dano que infligimos.

É aqui que começam os problemas, para poder agir rapidamente o melhor é usar o analógico para desenhar e isto exige bastante aprendizagem porque é bastante complicado fazer o desenho correcto 100% das vezes o que consegue ser frustrante. É nesta fase que muita gente baixa os braços e diz que o jogo se controla mal, quando na realidade “apenas” exige dedicação: é preciso entender que os desenhos funcionam mais como gestos, que é como quem diz ataques num jogo de luta como o Street Fighter. O desenho do punho pede uma simples rotação de 360º do analógico, o martelo uma linha e uma rotação e por aí diante. A partir do momento que se percebe isto e se memorizam os simples gestos, é uma questão de treino até se começar a atinar com o sistema, mas apesar da taxa de sucesso se aproximar dos 100% com o treino, não deixa de ser irritante perder um combo quando o desenho não é reconhecido.

The-Wonderful-1011Não só podemos nós atacar como também podemos dar ordem aos nossos companheiros para usar as armas que “desenhamos”, isto juntamente com o lock-on, a possibilidade de atordoar os inimigos e cancelar as animações dos ataques são os factores mais importante para fazer combos elevados e estilosos. O problema é que o jogo faz um péssimo trabalho a explicar estas mecânicas, sendo que grande parte delas nem são mencionadas, ficando a nosso cargo descobrir e aprendê-las. Felizmente, a Internet serve para alguma coisa. Apesar de ser possível uma pessoa safar-se em Very Easy e até Easy sem aprofundar ou sequer tocar em algumas destas técnicas, de Normal para a frente são importantes não só para obter boas pontuações mas também para não levar uma tareia enorme e passar imenso tempo para derrotar um inimigo que de outra forma de destruiria em menos de um minutos.

Os ataques vão sendo desbloqueados ao longo do jogo, mas grande parte das habilidades como a defesa e o desvio, têm de ser compradas, algo que os mais distraídos podem não dar conta. Além de habilidades, transformações e itens também se compram blocos para serem equipados que mudam completamente o jogo, cada um com as suas vantagens e até desvantagens. Por exemplo podemos customizar a nossa equipa para dar prioridade à recuperação de vida em detrimento da recuperação da energia para as transformações ou podemos ganhar a habilidade de fazer um contra-ataque ou de abrandar o tempo quando nos esquivamos no último segundo.

AYqqUYVA pontuar estas cenas de acção intensa há uma série secções completamente diferentes umas das outras: há puzzles, plataformas, controlam-se naves, robôs e fazem-se todo o tipo de coisas emprestadas de outros géneros, mas não vou estragar as surpresas. Surpreendentemente, estas secções resultam sempre razoavelmente ou até muito bem e oferecem imensa variedade ao jogo, criando um jogo repleto de vários tipos diferentes de acção praticamente non-stop, tal como um verdadeiro filme de pipocas, sem nunca esquecer o bom humor disparatado. Precisei de cerca de 30 horas para passar o jogo em Normal (como de costume em jogos Platinum, o jogo não conta o tempo das vezes que perdemos e repetimos), mas quem se fica por aí está apenas a arranhar a superfície, há 100 heróis diferentes escondidos nos níveis para recrutarmos, estatuetas, ficheiros com informação sobre os inimigos e personagens, uma espécie de achievements, missões secretas, missões separadas do modo de história que podem ser jogadas com 5 jogadores ao mesmo tempo (offline), uma série de transformações e blocos que provavelmente não se conseguem comprar à primeira e talvez mais importante do que tudo isto, há o surpreendentemente profundo sistema de combate a masterizar para obter pontuações elevadas para chegar ao troféu Pure Platinum no fim dos níveis.

Tendo em conta que temos 100 personagens diferentes em acção mais os inimigos no ecrã, individualmente os modelos não são impressionantes, mas os gráficos são bastante bons, limpos, coloridos e detalhados dentro do estilo tendo até momentos bastante impressionantes como a cidade a desmoronar-se enquanto lutamos e corremos dentro dela. Mesmo com todas as personagens, armas gigantes, inimigos e explosões o jogo não tem grandes quebras de framerate, apesar de nem sempre se manter nos 60 fps. Confesso que não notei estas quebras pelo que não me afectaram a experiência. A banda sonora faz bem o seu trabalho com vários bons temas, especialmente o principal e variações que ficam no ouvido, além disso todos os diálogos são falados e as vozes parecem directamente saídas de um desenho animado, sendo possível escolher entre Inglês e Japonês.

gx5TgEoNuma época em que grande parte dos jogos oferecem pouca resistência e pecam por ajudar o jogador em demasia, The Wonderful 101 vai pelo caminho oposto e não explica praticamente nada, sendo extremamente difícil de assimilar para quem não está disposto a investir no jogo para o dominar. Apesar de ser desnecessário explicar tão pouco, dos desenhos serem  muito difíceis de masterizar e de sofrer de alguns problemas de câmara e alguns bugs, depois de umas boas horas e muito suor, os pontos bons ultrapassam largamente os maus e descobre-se um jogo de acção brilhante com imenso conteúdo, acção constante, bom humor, variedade e um sistema de combate não só profundo e divertido como original.

Infelizmente The Wonderful 101 é o tipo de jogo que se adivinha ser incompreendido tanto por jogadores como pela crítica (o que se tem verificado) e que daqui a uns anos, pequenos grupos de fãs em fóruns vão olhar para trás e lamentar o pouco sucesso deste clássico.

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