Análises

Dragon’s Crown

O género de beat’em up 2D tem vindo a ressurgir com alguma importância nesta geração, muito graças aos serviços digitais que existem, aliados à componente online que muitos receberam. Clássicos como Golden Axe, Streets of Rage, Guardian Heroes e outros ficaram na memória de muitos jogadores ao longo dos anos. Dragon’s Crown nasce de um velho sonho do seu director, George Kamitani, em fazer um beat’em up 2D com classes distintas e adicionar ao mesmo elementos RPG.

Quem conhece a Vanillaware sabe que esta empresa tem um estilo de apresentação muito peculiar, não sendo este jogo excepção. Quer se goste, ou não, é inegável que é um estilo muito diferente dos comuns jogos em 2D, podemos inclusivé dizer que se trata de arte videojogável, pois o processo de desenvolvimento do jogo passa por desenhar manualmente uma grande parte do que vemos ecrã, proporcionando sem dúvida um visual sem igual.

Dragon’s Crown é que se chamaria vulgarmente de um dungeon-crawler. Temos classes com habilidades distintas, elementos de evolução nas mesmas, com diversas estatísticas e uma enorme quantidade de loot para apanhar aliado a sistema de combate de género hack’n slash. Tudo isto combinado com uns impressionantes 60 fps resultam num jogo bastante completo e fluido.

A primeira coisa a fazer em Dragon’s Crown é selecionar uma das seis classes à nossa disposição. Warrior, Dwarf, Amazon, Wizard, Sorceress e Elf. Todos eles têm habilidades bem distintas, e apesar de à primeira vista alguns parecerem redundantes, sobretudo pelo nome, não jogam todos da mesma maneira.

Warrior é o típico jack of all trades, ou seja, tem boa defesa, bom ataque, mas não sobressai em nenhum dos atributos que classificam as classes. Dwarf é o típico tanque que está constantemente na linha da frente, com habilidades para fortalecer a sua defesa, e é a única classe com habilidade de agarrar os oponentes. Amazon é um pouco diferente, apesar de ser uma classe melee, tem habilidade para fazer muito dano físico, mas é também a que menos defesa tem, portanto, alto risco e alta recompensa. Elf é a nossa arqueira, com possibilidade de, ainda que seja de evitar, combate físico e ainda alguma magia. Por fim as duas classes dedicadas à magia, sendo que Wizard foca-se nas habilidades mais ofensivas e Sorceress nas mais defensivas.

Dragons Crown review screenshot 1Todas as classes são viáveis de utilizar, resta apenas ao jogador a normal curva de aprendizagem das mesmas e dos seus movimentos de ataque e habilidades.

As classes à medida que sobem de nível ganham pontos para poderem adquirir e melhorar novas habilidades. Não é possível maximizar todas, mas existe maneira de, se quisermos, fazer um reset aos pontos já gastos.

A quantidade de movimentos que temos disponíveis ao longo do jogo não é muito grande, mesmo com aquisição de novas habilidades, tornando o combate acessível, mas com alguma profundidade para quem a procurar, com cancels, juggles e saltos. Temos ainda pequenos toques no gameplay das classes de magia como não usar feitiços de fogo na água, ou mesmo transformar inimigos em sapos.

A história do jogo desenrola-se em Hydeland, uma cidade medieval que vê o rei em busca da coroa do dragão. Quem estiver à espera de uma história mais desenvolvida e que tenha particular interesse na mesma não o irá encontrar aqui. A cidade e os seus diversos pontos de interesse, como a igreja, guild hall e o mercado são pontos de referência de notar, pois são estes que nos vão ajudar na nossa aventura.

Após escolhermos o nosso herói e um breve tutorial somos apresentados aos cenários onde se desenrola o aspecto mais importante do jogo, a jogabilidade. É ao longo de nove níveis, cada um com um caminho A e B, que vamos colecionar várias partes de loot, indispensáveis para a nossa sobrevivência, como também itens para a história. O loot é dos pontos mais importantes do jogo, mas também um dos que menos conseguido está. É raro não ter uma peça melhor do aquela que acabamos de apanhar, no nível seguinte. Isto cria um sentimento de que o que apanhamos nunca é especial, único, mesmo sendo o seu rank alto, pois no nível seguinte é quase certo que iremos ter algo melhor ou com mais defesa/ataque. Uma vez terminado um nível, pois é só aí que recebemos o loot, temos que o identificar, se o quisermos usar, sendo que isto custa ouro.

O combate, como dito anteriormente, desenrola-se num plano 2D, o que significa que grande parte do mesmo envolve posicionar o nosso avatar na respectiva linha horizontal em que se encontram os inimigos. O movimento dos personagens pode parecer algo lento, mas é um “mal” necessário para nos posicionarmos correctamente para desferir os golpes ou feitiços. É com grande frequência que nos perdemos no meio das batalhas, pois todos os efeitos visuais que podem acontecer ao mesmo tempo, com as 4 classes todas a atacar, mais inimigos, que não são poucos em quantidade, resultam em alguma frustração por não vermos o que estamos a fazer. Isto faz com que seja necessário pensar antes de fazer ataques, pois o mash de botões resulta muitas vezes em nada, e quando nos apercebemos já o nosso personagem está morto e não sabemos porquê ou de onde veio o ataque.

Espalhados durante os níveis vemos montes de ossos no chão que podem ser recolhidos. Mais tarde, quando acabarmos o nível, podemos ressuscitar a pessoa a quem pertenciam estas ossadas. É uma forma de colmatar quem não queira/possa ligar online, permitindo ter sempre ao nosso lado um companheiro NPC. Durante os níveis podemos por vezes encontrar monstros para montar, dando um belo toque de nostalgia lembrando jogos como Golden Axe.

O jogo permite que até 4 pessoas possam jogar ao mesmo tempo, sendo que isto poderá ser feito em offline ou online(sem voice-chat), podendo existir um combinação dos mesmos, ou seja, 2 pessoas offline e duas online. Não é possível jogar online desde o início, o que pode provocar alguma perplexidade, mas existe uma explicação. Para além de todas as mecânicas que são necessárias aprender no jogo há uma razão maior. Uma vez atingido uma certa percentagem no jogo, é desbloqueada a possibilidade de encadear níveis seguidos sem voltar para a cidade, isto permite entre outras coisas poupar tempo, mas sobretudo ganhar a possibilidade de receber melhor equipamento no final de cada nível, ou seja, quanto maior o número de níveis seguidos melhor poderá ser a recompensa. Isto afeta o online, pois se estivermos numa party, a partir do momento que se volte para a cidade após a conclusão de um nível, esta é desfeita. Esta foi a solução encontrada para evitar que todos os jogadores estivessem todos na cidade fazendo todos coisas diferentes, podendo causar incómodo uns aos outros. Uma vez que se encadeie vários níveis seguidos surge a possiblidade de cozinhar entre os mesmos para aumentarmos temporariamente as nossas estatísticas. Não é fácil por vezes discernir quando um jogador é humano ou npc, pois é possível entrar num nível que já tenha sido começado, co-op drop-in e drop-out.

As versões PS3 e PSVita partilham o mesmo save-game, o que quer dizer que podemos transferir o nosso jogo guardado entre as plataformas, para que possamos continuar o nosso jogo, quer na sala ou com a portabilidade da Vita. Não existe infelizmente conectividade entre as duas no que toca ao jogarem online.

O modo online coincide com um incremento de dificuldade no jogo. Nesta altura da história é necessário encontrar determinados itens variando no caminho dos níveis, o que resulta num pico que até ali não havia acontecido. Isto leva a um dos pontos menos positivos do jogo. Como existe uma maior dificuldade, é necessário grind para que possamos subir de nível para ser possível vencer os inimigos mais fortes. Dada a natureza dos níveis, que não demoram mais de 10-15 minutos para terminar e ao seu baixo número, isto leva a uma repetição muito cedo de praticamente todo o conteúdo do jogo.

Completar o jogo pela primeira vez deverá rondar as 12-18 horas. Apesar de o níveis serem pequenos, a exigência de nível para derrotar alguns dos bosses do jogo faz com que as horas aumentem, restará saber se o interesse dura até lá. Uma vez completado o jogo o que deverá ser perto de nível 35, são desbloqueados novos modos de jogo. O modo difícil é a próxima dificuldade, nota positiva de como este modo é apresentado. Em conjunto com o aumento de dificuldade temos o coliseu para que possamos travar duelos entre jogadores, offline e online, mas sem qualquer recompensa. O modo mais interessante é sem dúvida o labirinto do caos, pois aqui estamos presente a uma masmorra que aleatoriamente nos atira para partes dos níveis que até agora tinhamos visitado, portanto, pode ser a primeira parte de um nível seguida de imediato por um boss. É um conceito interessante e podemos receber recompensas únicas de acordo do o número de andares que conseguimos fazer. Para aqueles queiram ainda mais, temos ainda a dificuldade Inferno, desbloqueada após terminar o modo difícil, que leva o nosso personagem até nível 99, e dando a possibilidade de acabar o labirinto do caos, coisa que não é possível nas dificuldades anteriores.

Dragons Crown review screenshot 2Este é sem dúvida um jogo com uma apresentação irrepreensível. A arte que vemos aliada a todas as animações fluidas, quer nos movimentos quer no combate, tornam o visual único. Dada a natureza de construção do aspecto dos jogos da vanillaware, é compreensível, não deixando de ser desapontante, a quantidade de customização que temos ao nosso dispôr. As nossas classes nunca mudam de aspecto, exceptuando pequenas mudanças de cor. O que isto quer dizer é que as peças de armadura e acessórios que apanhamos durante a campanha são apenas números para os quais olhamos, nunca refletindo no aspecto exterior a evolução do personagem. No que toca às armas, foram introduzidos visuais diferentes, mas a sua variedade é pouca, o que faz com que uma arma com estatísticas excelentes possa ser igual àquela com que começamos o jogo, e sendo o jogo orientado para a constante procura por melhor equipamento, é frustante a nível visual não ter evolução. Onde foi feito um grande trabalho foi nos bosses, que revelam um muito distinto visual/apresentação e mecânicas.

Os níveis acabam por sofrer um pouco com isto, apesar de alguma variedade, não senti que os ambientes sejam únicos e diferentes o suficiente para se demarcarem uns dos outros, e como vão ser repetidos várias vezes gera algum cansaço bastante cedo.

Seria fácil olhar para o jogo e rotular certos aspectos do mesmo, nomeadamente no que toca ao visual de certos personagens, com silhuetas demarcadamente exageradas. O que pode escapar aos mais desatentos, é que quer os avatares femininos e masculinos estão representados de uma forma excessivamente diferente, mas intencional, como aliás mencionou o seu diretor, de forma a se demarcar de outros jogos similares. É certo que pôs o jogo na bocas das pessoas, embora nem todo o discurso fosse o mais elogioso. Como muitos jogos é caso para dizer que a jogabilidade ultrapassa o seu aspeto.

No campo sonoro temos uma banda sonora medieval, de época, sem grande destaque, à excepção talvez do tema principal. Durante a história temos a narração de alguém bastante irritante, que nos lembra constantemente o nosso objectivo.

No final, e por baixo de todo o esplendor visual, temos um beat’em up competente com um sistema de loot que recompensa o jogador constantemente. Por baixo da repetição, quer de níveis ou mesmo do combos, e da pouca personalização, existe aqui algo que satisfará quem tem uma procura incessante por loot, seja com maior dificuldade ou percorrendo o labirinto do caos , uma das melhores adições ao jogo.

Não é perfeito, longe disso, mas é provavelmente o melhor do jogo da Vanillaware.

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