Análises

Bravely Default: Where the Fairy Flies

A época de ouro dos RPGs Japoneses (JRPG)  já lá vai. Apesar da ocasional pérola, o género tem vindo a perder relevância, alguns títulos arriscam evoluir com sistemas novos enquanto outros se deixam estar no conforto do clássico, estando grande parte dos jogos de ambos os campos geralmente preso a narrativas destinadas adolescentes e carregado de clichés. Final Fantasy, a série que é para muitos cabeça de cartaz do género também já viu melhores dias, não enchendo toda a gente de confiança no rumo da Square-Enix.

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No entanto foi das mãos da Square-Enix e Silicon Studios (3D Dot Game Heroes) que surgiu Bravely Default: Where the Fairy Flies, um JRPG  que é para todos os efeitos um sucessor espiritual de Final Fantasy: The Four Heroes of Light. Originalmente um RPG de acção, Bravely Default tem no seu núcleo todas as bases de um Final Fantasy clássico: um sistema de combate por turnos, jobs/classes, batalhas aleatórias e uma história que gira à volta de cristais mágicos.
Juntamente com estas bases sólidas e com milhões de fãs, o jogo apresenta uma série de novidades que o torna um dos melhores JRPG a sair nos últimos anos. O sistema Brave e Default que dá o título ao jogo é simples, mas tem imenso impacto: durante o combate, qualquer acção tomada por uma personagem usa BP e no fim de cada turno recebe-se 1 BP, sendo que cada personagem que comece um turno com BP negativo fica parada; o que torna as coisas interessantes é que podemos escolher a opção Default, ficando esse turno apenas a defender sem usar BP, o que nos permite acumular para depois usar a opção Brave que nos dá uma acção extra com o custo de 1 BP. Usar este sistema inteligentemente permite-nos alternar entre defesa e ataque, podendo usar o Brave várias vezes durante um turno para realizar várias acções seguidas.

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Além disso, durante a batalha podemos invocar personagens de amigos e outras pessoas que tenham o jogo e que tenham partilhado um ataque dos seus heróis, o que nós também podemos fazer se quisermos ajudar os outros.
O terceiro sistema que altera as batalhas é a possibilidade de parar o tempo em qualquer altura para fazer a acção que quisermos, como por exemplo curar uma personagem antes desta ser atacada, ou tentar destruir um inimigo antes que ele nos destrua a nós. Cada vez que paramos o tempo, ou usamos Brave com o tempo parado, usamos SP, um máximo de 3 pontos que podem ser obtidos se a consola ficar com o jogo ligado em descanso durante 8 horas, ou se houver pressa, comprando poções com dinheiro verdadeiro para recuperar SP. Ouvir a simples menção de micro-transacções é o suficiente para eu torcer o nariz, mas na prática não há necessidade absolutamente de pagar por estas poções, ou até de usar este sistema caso não nos apeteça ter a consola ligada tanto tempo.

Há mais incentivos a manter a consola em descanso e a fazer Street Pass: para reconstruir a cidade destruída de um dos nossos heróis precisamos de fazer Street Pass para ganhar habitantes que nos ajudam a construir lojas e melhorá-las, o que leva tempo que é contabilizado não só enquanto jogamos, mas quando a consola está em descanso. À medida que a cidade evolui não só podemos comprar equipamento, itens e ataques especiais das lojas como recebemos presentes.

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Ao longo do jogo vamos ganhando classes ou jobs que podemos atribuir às nossas personagens, ao ganhar batalhas as classes sobem de nível e podemos usar novas habilidades. Além de poder usar as habilidades da própria classe, as personagens podem também escolher um conjunto de outras habilidade que já tenham aprendido e também habilidades de suporte, o que permite fundir classes e criar personagens à nossa medida. Também podemos ligar cada personagem a um amigo para nos vai emprestar habilidades que ele já tenha obtido mas nós não, o que pode ser uma ajuda valiosa. As classes são as já conhecidas e amadas dos Final Fantasy como os Black Mages, Warriors, Knights e por aí adiante e as suas habilidades também retornam, juntamente com novidades claro.

No que toca a história, Bravely Default não tenta nada de novo, o que provavelmente é propositado visto que o jogo é de certa maneira uma carta de amor ao Final Fantasy clássico, a começar com a importância que os cristais têm na história. As personagens foram tornadas mais velhas na versão ocidental, deixando de andar entre os 15 e 17 e passando para os 18 e 20, sem dúvida uma tentativa de ajudar o público a identificar-se um pouco mais com as personagens, visto que não partilhamos o interesse (obsessão?) que tantos criadores Japoneses têm em adolescentes e crianças. Isto ajuda o diálogo a cair melhor, visto haver bastante diálogo com conotação sexual, se bem que ligeiro e maioritariamente para efeitos de comédia. Não sendo especialmente interessantes, as personagens não são más e têm os seus bons momentos; certamente ajuda o facto do texto não ser nada excessivo e de estar brilhantemente traduzido, apesar de ligeiramente censurado.

Quase todo o diálogo faz-se acompanhar por vozes que podem ser alternadas entre o Japonês e Inglês, algo que muita gente deve apreciar visto que os fãs do género tendem a gostar do trabalho de voz Japonês, geralmente mais expressivo que o Inglês, nem que seja porque não percebemos o que dizem. Surpreendentemente, as vozes em Inglês estão boas, cheias de vida e expressão, sendo até preferível face às Japonesas para ouvir as liberdades tomadas pelos actores com sotaques e vozes, até porque seguem o que aparece escrito no ecrã. De qualquer das maneiras, ficam bem servidos.

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É impossível não falar da música, Bravely Default tem uma banda-sonora brilhante composta por Revo, que se estreia da melhor maneira como compositor a solo da banda-sonora de um videojogo, contando com a participação de nomes sonantes como Motoi Sakuraba (Tales of Phantasia, Golden Sun, Dark Souls, etc.) e até Marty Friedman, ex-guitarrista dos Megadeth que se mudou para o Japão em 2003 e tem estado ligado à composição para anime e videojogos. Dos grandes temas principais, às músicas das personagens e masmorras, as faixas que impressionam não são poucas, tanto com as suas grandiosas orquestras como com as mais pessoais peças de piano, havendo aqui e ali temas com influências célticas ou até de Jazz, sendo forte a fusão com guitarras eléctricas e sintetizadores, algo habitual no compositor. É um trabalho extraordinário de Revo, que consegue criar uma banda-sonora que sem recurso a chiptunes ou temas antigos consegue evocar um sentimento de estarmos a ouvir músicas de um RPG antigo, isto enquanto deixa o seu estilo pessoal bem presente e com uma instrumentação e produção de topo.

Os gráficos não se ficam muito atrás, as personagens usam modelos 3D simples, mas extremamente bem animados e com um estilo único, encaixando perfeitamente nos lindíssimos cenários desenhados à mão, destacados pelo efeito 3D que por vezes lhes dá um aspecto de livros pop-up. Apesar de não interferir muito no jogo, o framerate tende a descer no mundo exterior se o 3D estiver ligado.

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Nem tudo são rosas, as masmorras tendem a ser desinteressantes e o ritmo do jogo sofre mais para a frente, mas graças às opções implementadas pela equipa, isto previne o jogo de sofrer tanto quanto o costume enquanto andamos de cidade em cidade, masmorra em masmorra, a cair na rotina que levou muitos a desistir do género. Podemos mudar a dificuldade, alterar a probabilidade de entrar em combates aleatórios (podendo até acabar com eles), ligar e desligar o ganho de dinheiro, marcador de objectivo, pontos de experiência e/ou de classes, até é possível alterar a velocidade do jogo durante os combates bastando usar o D-Pad como se estivéssemos a andar para a frente num vídeo.

Crescendo de uma base clássica e já vista tantas vezes, Bravely Default consege com muito engenho unir o tradicional com o original, usando as capacidades “sociais” da 3DS de maneiras únicas, influenciando positivamente várias facetas do jogo. A equipa entende como muito poucas, que ao dar ao jogador muitas opções e controlo sobre o jogo, a experiência torna-se muito mais agradável, tornando até certos buracos em problemas menos graves.
Uma longa e bela aventura, Bravely Default: Where the Fairy Flies é sem dúvida, um dos melhores RPG a sair nos últimos anos

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2 thoughts on “Bravely Default: Where the Fairy Flies”

  1. “A época de ouro dos RPGs Japoneses (JRPG) já lá vai”

    Acho que se pode adicionar à frase algo como tradicionais ou por turnos.
    Percebo o que quer dizer a frase, mas eu meto no saco Demons/Dark Souls por exemplo.

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