Análises

Lightning Returns: Final Fantasy XIII

Lightning Returns: Final Fantasy XIII é o último episódio de uma trilogia que nunca caiu nas boas graças dos fãs da série Final Fantasy. Por isso mesmo, tem uma tarefa hercúlea à sua frente: completar a história destas personagens e do destino do mundo sem que no processo, não piore os problemas herdados.

Em Lightning Returns, é visível um relógio no canto superior direito que marca o fim do mundo. Exceptuando em algumas ocasiões como ir aos menus ou entrar numa batalha, o relógio nunca pára. Isto significa que a gestão do tempo é extremamente importante, e que terão de abordar múltiplas quests em simultâneo de forma a conseguir fazer o mais possível.

Tudo no jogo funciona sob as regras do relógio. As quests só podem ser completadas em determinadas alturas do dia, e os itens vendidos nas lojas são alterados regularmente. Apesar de o uso de tempo limite não ser propriamente uma novidade em JRPGs, é um sistema que resulta surpreendentemente bem, pois foca claramente a atenção do jogador na história principal e dá-lhe a devida importância.

Lightning Returns review screenshot 4Pelo facto de os sete dias impostos pelo relógio não serem suficientes para completar tudo no jogo, Lightning Returns é consequentemente menos linear que as duas anteriores partes da trilogia, pois já não se segue uma cadeia fixa de acontecimentos. Em vez disso, o jogador tem a possibilidade de escolher quais os eventos que acha importante e que quer fazer, e consequentemente, evoluir a Lightning de acordo com essas decisões. Ao contrário de títulos anteriores onde os atributos são aumentados ao derrotar inimigos, em Lightning Returns é ao completar quests que os atributos de Lightning são aumentados.

Se no final do tempo limite não tiverem completado todas as missões principais e derrotado o boss final, irão ser presenteados com um ecrã de gameover. Mas não se preocupem, pois será vos dada a opção “New Game +”, significando que podem recomeçar a campanha com os mesmos atributos e quase todo o equipamento obtido na campanha anterior. Na primeira vez que pegarem no jogo, o tempo limite será uma enorme barreira mental, mas na segunda vez, já não terão a mesma dificuldade em lidar com o relógio. Aliás, se tudo for bem feito, é possível completar todas as missões principais e ainda ficar com quatro ou cinco dias de sobra para lidar com as missões secundárias.

A nível de enredo, o assunto é mais sério e complicado de abordar. Embora Final Fantasy XIII tenha um lore bastante rico e tenha proporcionado um bom contexto para os eventos, a história em si não estava bem organizada e foi contada de uma forma algo atabalhoada. O Final Fantasy XIII-2 veio agravar ainda mais a situação, pois juntou um tópico tão complexo como viagens no tempo a algo que por si só já era confuso. Tais problemas tornaram-se demasiado graves para Lightning Returns corrigir.

Faltam sete dias para o fim do mundo. Após um longo sono de 500 anos, Lightning é acordada para ser uma serva de Deus, cuja tarefa incumbida é a de salvar o máximo de almas possível. Estas almas irão posteriormente fazer parte de um novo mundo. À medida que Lightning for completando missões, o Apocalipse vai sendo adiado durante uns dias. Ao completar as cinco missões principais, irão garantir presença no último dia. A premissa é bem interessante, mas as missões secundárias, que acabam por ser importantes para a evolução dos atributos de Lightning, diluem bastante o interesse por serem baseadas em coisas triviais. Ora num momento a Lightning fala em salvar o mundo, para logo a seguir andar a juntar um rebanho de ovelhas. Neste jogo em particular, as chamadas fetch quests até fazem sentido, pois Lightning proporciona uma paz de espírito aos habitantes de forma a se prepararem para a transição para um novo mundo. Mas isto não torna estas missões mais interessantes.

O que também não ajuda, é o facto de a Lightning ter sido transformada em algo desprovido de alma e emoções. É certo que é explicado o porquê de tal ter acontecido, mas não altera o facto de se tornar uma personagem pouco apelativa como consequência. Lightning é apenas uma mera sombra daquilo que foi nos dois anteriores capítulos. Além disto, sente-se a falta de um verdadeiro vilão ao longo da história. Sente-se a falta de uma personagem que seja caracterizada de forma directa como “O” vilão, e que a sua presença seja fortemente feita ao longo da história, fazendo a ligação com tudo o que está a acontecer naquele mundo.

Talvez por estarem presos a um guião menos bem conseguido, os actores que emprestam as vozes ás personagens, foram apanhados em contra-pé. Em uns casos não conseguem passar qualquer tipo de emoção, e em outros, esforçaram-se em demasia mas com resultados igualmente medíocres. Para aqueles que não ficarem satisfeitos com as vozes inglesas, têm à sua disposição um pacote com as vozes japonesas que pode ser adquirido através da Playstation Network e Xbox Live. No resto do departamento sonoro, Lightning Returns fica aquém da grande banda sonora apresentada nos anteriores capítulos da trilogia. Não é que seja propriamente má, mas não consegue criar o mesmo impacto ao longo da aventura.

Graficamente, seria de esperar que Lightning Returns fosse melhor que os seus antecessores, mas tal não acontece. As cinemáticas CG continuam fantásticas, mantendo-se ao nível daquilo que a Square Enix nos tem habituado ao longo da série, e as personagens principais encontram-se razoavelmente detalhadas. Mas os cenários, embora maiores, são menos detalhados e apresentam texturas de baixa resolução. A frame rate por vezes também não é consistente, embora raramente prejudique a jogabilidade.

Lightning Returns review screenshotMas o que redime aquilo que à partida poderia ser considerado um título menos bem conseguido, é o sistema de batalha presente em Lightning Returns. Através das Schematas, os jogadores podem personalizar os aspectos de combate de Lightning, podendo escolher que Garbs (fatos) utilizar, armas, armaduras, acessórios e habilidades. No máximo até três Schematas podem estar equipadas em simultâneo, sendo que podem ser trocadas em tempo real ao longo dos combates as vezes que forem necessárias. Pensem nisto como uma mistura entre o sistema Dresspheres visto em Final Fantasy X-2 com as batalhas de Final Fantasy XIII. No fundo, é mais uma versão do clássico sistema de classes.

Cada Garb tem a sua particularidade, seja por dar um bónus a determinado atributo, seja por ter habilidades bloqueadas. Cabe ao jogador decidir que Garbs são mais úteis em determinadas situações, dando até a hipótese de fazer Schematas com determinados objectivos. Podem, por exemplo, criar uma Schemata dedicada a debuffs ou uma puramente focada em magia ofensiva. Nos combates, cada Schemata sem a sua própria barra ATB que vai decrescendo sempre que é efectuado algum comando. A juntar a isto, há um sistema que congela o tempo usando EP. Isto pode ser usado para, por exemplo, curar a Lightning numa situação de emergência ou para punir um inimigo que esteja vulnerável.

As batalhas são mais focadas na acção, incluindo até elementos de hack and slash. Dependendo do Garb usado, ao defenderem no tempo certo, o dano sofrido é substancialmente reduzido ou pode ser feito um contra-ataque e no processo, ser recuperada alguma barra ATB. Quando todos os elementos e funcionalidades do sistema de combate são bem usados, é possível derrotar bosses em apenas alguns segundos ou se tiverem paciência, demorar mais tempo mas não sofrer danos.

De referir que fora das batalhas, também é possível congelar o tempo. Ao usarem a funcionalidade Chronostasis, que consome 1 EP por cada utilização, ganham tempo adicional precioso para explorar ou completar quests. O EP é regenerado à medida que vão fazendo lutas, sendo que contra inimigos mais fortes, podem recuperar uma grande porção de EP. Inicialmente, o valor máximo de EP é baixo, mas com o avançar da história, o valor máximo vai aumentando progressivamente.

Apesar de Lightning não subir de nível ao vencer inimigos, isto continua a ser um aspecto crítico no jogo. Ao longo das áreas irão encontrar dezenas de tipos de inimigos, alguns em grupo e outros sozinhos. Uma vitória numa batalha pode não dar experiência (EXP), mas dá recompensas muito úteis, tais como novas habilidades, peças de equipamento ou dinheiro. A partir do sétimo dia, os monstros ficam progressivamente mais fortes, e há que adaptar o Schemata de acordo.

Mas o mundo está à beira do fim, e os monstros também são afectados, nomeadamente ao terem uma baixa população. Isto significa que se lutarem muitas vezes contra determinada espécie de monstro, ela ficará em vias de extinção. Se isso acontecer, irão enfrentar o último monstro dessa espécie. Denominados “Last Ones”, estes monstros são bastante mais fortes mas também dão maiores recompensas. Eles são fáceis de identificar, pois aparece “Ω” (omega) no seu nome. No geral, Lightning Returns é um jogo desafiante e que conta com os tradicionais difficulty spikes, coisa que pode ser agravada devido ao sistema de batalha mais táctico. Por isso mesmo, não tenham receio de começar a jogar em Easy Mode, e subir o nível de dificuldade no New Game +.

Quanto aos fatos, existe uma boa variedade e quantidade de Garbs, mas alguns apresentam inconsistências no design. Lightning não é nem nunca pretendeu ser uma personagem sexy, e o design dos fatos usados nos dois anteriores jogos reflectem essa consciência de mostrar uma quantidade de pele estritamente necessária. Mas alguns dos Garbs existentes em Lightning Returns como, por exemplo, o Amazon Warrior ou o Nightmare tapam o mínimo possível. Embora isto não tenha influência na história ou jogabilidade, contrasta negativamente com a personalidade de Lightning.

É visível de forma clara ao longo do jogo que Lightning Returns: Final Fantasy XIII, não tem os mesmo valores de produção de anteriores títulos da série. Ainda para mais, tinha a tarefa ingrata de completar uma história que sofreu com erros cometidos nos dois anteriores capítulos da trilogia. Lightning Returns não é o melhor Final Fantasy nem sequer consegue ser o melhor capítulo da trilogia, mas é um JRPG competente, com um bom sistema de batalha e uma boa longevidade. Apesar dos seus defeitos, quem gostou minimamente de Final Fantasy XIII e Final Fantasy XIII-2 irá conseguir retirar divertimento ao ver o encerrar de um ciclo. Mas por outro lado, se nunca gostaram desde mundo e destas personagens, não será com Lightning Returns que irão mudar de opinião

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