Análises

Persona 5

A roubar corações desde 20XX.

Versão testada: PlayStation 4

Nascida como um spin-off de Shin Megami Tensei, a série Persona tem vindo progressivamente a tornar-se cada vez mais popular. O “salto” foi dado principalmente graças a Persona 4 Golden e foi confirmado com Persona 5. Enquanto Shin Megami Tensei tem um tom mais negativo e opressivo, uma visão mais negativa sobre o mundo, a série Persona tem um tom mais positivo e é geralmente mais optimista.  Isto não quer dizer que os jogos Persona não tenham os seus momentos pesados, porque têm. Inclusive, abordam temas reais como política, problemas sociais, corrupção, suicídio e sexualidade, entre outros. Mas é este um dos aspectos que tornam os jogos Persona tão interessantes, pois combinam a vida normal de estudantes e os seus problemas com temas paranormais de forma coesa e cativante.

Sem entrar em especificidades, o elenco de Persona 5 são pessoas que de certa forma ainda não encontraram o seu lugar na sociedade ou que foram injustamente etiquetadas como sendo algo que não são. A dinâmica de grupo não é tão boa como a do Persona 4, mas é exactamente por isso que acho este grupo melhor. O elenco de Persona 5 é composto por pessoas com diferentes backgrounds e problemas, diferentes estatutos e responsabilidades, e com diferentes objectivos na vida. Seria pouco provável que este grupo heterogéneo se tornasse nos melhores amigos de sempre “de um dia para o outro”. Isto confere uma certa naturalidade ao grupo, pois, apesar das suas diferenças, estão a lutar por um objectivo em comum.

A forma como a narrativa é apresentada foi inspirada em séries de heróis. Cada Palace, as dungeons em Persona 5, funciona quase como se fosse um episódio, sendo que cada um contribui um pouco para a narrativa geral até chegar aos últimos capítulos, altura em que a narrativa principal entra em força. Isto faz com que certas partes da narrativa se arrastem mais do que o desejado, como algumas semanas nos meses de Julho e Agosto, mas a escrita, os diálogos e as personagens são tão credíveis e interessantes que acaba por compensar esse aspecto.

Para aqueles que nunca jogaram um título desta franquia, Persona 5 decorre ao longo de um ano. O protagonista é um estudante e há que conciliar a vida escolar com a vida de ladrão paranormal. Isto significa estudar, arranjar um part time, conviver com colegas de turma e conhecer pessoas novas. Fora das dungeons, o jogo pode parecer um  simulador de vida social, mas as relações que vamos estabelecendo com outras pessoas vão ter impacto nas lutas. Há medida que a força das relações vão subindo, aqui chamadas de Confidant, vão sendo desbloqueadas algumas habilidades passivas e até algumas Personas extra.

A vida de estudante e toda a parte social é complicada, por isso, não existe tempo para se fazer tudo quando se quer, coisa que todos nós sabemos muito bem no nosso dia a dia. Há que escolher onde e com quem gastar esse tempo livre da forma o mais eficaz possível. É necessário haver alguma gestão, mas é mais fácil de colocar todas as relações no rank máximo comparativamente aos anteriores Persona. Inclusive, algumas habilidades passivas obtidas com os Confidant facilitam a obtenção de tempo extra para usar como se bem entender.

Nas dungeons, quem jogou anteriormente um Persona certamente que se vai sentir à vontade neste novo título. Aliás, Persona 5 consegue ser um best off de elementos de anteriores jogos da série. Existem armas de fogo tal como no primeiro Persona, dá para falar com os inimigos nas lutas tal como no Persona 2 e está presente um sistema de calendário tal como introduzido no Persona 3 e 4. Em essência, Persona 5 é um jogo mais próximo das raízes da série, mas sempre com o seu próprio estilo.

Tratando-se de um JRPG com batalhas por turnos, seria de esperar batalhas com um ritmo lento, mas tal não podia estar mais longe da realidade. As batalhas iniciam-se ao atacar um inimigo numa dungeon e quase de forma imediata, a acção decorre numa arena específica. O que torna tudo tão rápido e dinâmico é a forma como a série encara estes duelos. Sempre que possível, o objectivo é atacar as fraquezas dos inimigos, significando que as lutas podem durar apenas 15 ou 20 segundos, evitando assim tornar-se maçador a longo prazo.

Mas não se deixem enganar pela rapidez de algumas lutas; existe táctica à mistura. De vez em quando vão encontrar inimigos acima do vosso nível, e há que usar todas as ferramentas à vossa disposição, incluindo buffs e debuffs. Se o protagonista morrer, é game over. As lutas de bosses, em particular as dos finais dos Palaces, são bastante diferentes umas das outras e têm elementos únicos que envolvem coisas fora dos simples ataques, como por exemplo usar uma distracção para o boss parar o seu ataque, usar um elemento do cenário para fazer stagger ao boss, ou até eliminar todos os inimigos que o boss evoca dentro de um tempo pré-definido.

Isto vem em linha com o design dos Palaces. Tal como no Persona 4, as dungeons de história do Persona 5 são todas diferentes, eliminando assim a repetição que se podia encontrar na exploração do Tartarus, a única dungeon em Persona 3. Todos os Palaces têm um design único, mas também têm puzzles diferentes para resolver. Este é mais um elemento introduzido para tornar a exploração menos repetitiva e mais interessante a longo prazo, e o melhor que tudo, é que estas mecânicas encaixam perfeitamente no tema dos Palaces.

Em adição às dungeons de história, está também presente uma dungeon chamada Mementos. Esta dungeon “adicional” traz algumas semelhanças com Tartarus, porque se trata de uma dungeon com dezenas de pisos gerados aleatoriamente. A sua exploração é um pouco repetitiva, especialmente comparada com os Palaces, porque o cenário em cada piso nunca muda muito. Mas a sua introdução tem um objectivo muito especifico, além de ter uma ligação com o Morgana. Por razões que vão saber durante a história, os Palaces são dungeons que apenas estão disponíveis temporariamente. Mementos existe para colmatar este aspecto, porque representa uma segunda oportunidade de apanhar as Personas que ficaram por apanhar nos Palaces e serve também para ganhar alguma EXP e dinheiro adicional, se necessário. A origem de Mementos é algo que vão descobrir durante a campanha.

Apanhar Personas é algo muito importante e não deve ser menosprezado, por muito forte que possam estar nesse preciso momento. Como mencionado anteriormente, a morte do protagonista representa um game over. Mas o que são Personas? Personas são representações da personalidade do utilizador. As personagens que fazem parte da equipa apenas têm acesso a uma. O protagonista é o único capaz de conter várias Personas dentro de si. Cada Persona tem as suas estatísticas e habilidades, e sendo possível alternar entre Personas a meio do combate, há que saber que Persona usar no momento certo e quais evitar tendo em conta a sua fraqueza. Se, por exemplo, estiverem a lutar contra inimigos que usem ataques de fogo, então, idealmente não devem usar uma Persona que seja fraca contra esse elemento.

Na Velvet Room, uma sala que os fãs da série conhecem bem, vão poder registar as Personas que já encontraram e vão também poder fundir Personas para criar outras mais fortes. Existem centenas de Personas diferentes, por isso, vão perder muito tempo e gastar bastante dinheiro em fusões. A Velvet Room também tem outras ferramentas à disposição que permitem sacrificar uma Persona em troca de EXP para outra Persona, ou até pegar numa Persona e transformá-la num item. Aqueles que quiserem maximizar as estatísticas de uma Persona e personalizar as suas habilidades vão poder fazê-lo, desde que tenham alguma paciência, pois é um processo moroso. Mas é também recompensador ver o resultado final em acção, quer seja a dar quantidades massivas de dano ou a conseguir encaixar ataques sem qualquer problema.

Eu já falei jogabilidade fora e dentro das dungeons, mas há algo que é impossível não mencionar; algo que vão reparar logo nos primeiros minutos: toda a componente gráfica. Persona 5 é o primeiro título da série desenvolvido a pensar em consolas de alta definição, e por isso, o aspecto visual utiliza um estilo 3D que confere ao jogo um estilo artístico bastante distinto. As animações corporais das personagens são surpreendentemente bastante naturais, mais até do que alguns jogos de orçamento bastante elevados, e conferem uma boa dose de realismo e carisma às diferentes situações. Os próprios menus são brilhantes e transbordam carisma em todas as transições entre submenus, demonstrando até onde a equipa de desenvolvimento foi na atenção aos detalhes. Os menus são espalhafatosos, certo, mas sem nunca esquecer a funcionalidade.

A banda sonora esteve a cargo de Shoji Meguro, compositor veterano da Atlus que também esteve envolvido em vários outros títulos Persona e também títulos da série Shin Megami Tensei. Com alguma inspiração em Jazz e RnB, a banda sonora de Persona 5 é de grande qualidade, mantendo assim a tradição da série neste departamento. A única altura em que achei que perdeu algum dinamismo foi mesmo no final do jogo, em particular na luta final. Quanto ao voice acting, a localização é boa e no geral bastante competente. No entanto, e tenha sido por falha da localização ou directrizes da Atlus Japão, a pronunciação dos nomes deixa muito a desejar. Em todo o caso, este é um problema facilmente resolvido, bastando fazer download das vozes originais japonesas. Tendo em conta que o jogo é fortemente baseado na cultura nipónica, jogar Persona 5 com as vozes japonesas é sem dúvida a melhor forma de desfrutar desta aventura.

O inicio de 2017 foi extremamente rico em lançamentos de bons jogos, e mesmo assim, Persona 5 consegue destacar-se dos demais. A história, a apresentação e a componente sonora são de alta qualidade, já para não falar na longevidade que facilmente ultrapassa a centena de horas. E se ainda quiserem mais, há sempre um modo New Game Plus à disposição, assim como bosses opcionais. Se nunca jogaram um Persona, têm agora a oportunidade de se iniciarem na série com aquele que é provavelmente o melhor título da franquia até à data. Se, por outro lado, são fãs da série, de certeza que não vão ficar desiludidos. Persona 5 simplesmente tornou-se no exemplo do que os jogos JRPG modernos devem ser.

Nota editorial: Passei cerca de 120 horas em Persona 5, escolhi a melhor waifu (Makoto) e vi o True Ending. Foi-nos fornecida uma cópia deste jogo pela Ecoplay para efeitos de análise.

Nota Final - 10

10

Persona 5 vai buscar alguns dos melhores elementos dos anteriores títulos da franquia e consegue oferecer um pacote extremamente completo. Sem dúvida é um excelente RPG a nível de jogabilidade e arrebatador a nível visual.

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