Análises

Tales of Arise

O homem da máscara de ferro!

Versão testada: PlayStation 5
Disponível para: PC, PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X/S, Xbox One

A franquia Tales tem um longo historial que começou em 1995. Ao longo deste período, a série produziu alguns excelentes títulos, principalmente Vesperia, Symphonia e Abyss, mas também lançou títulos que falharam em muitos aspectos, como Xillia e Zestiria. Berseria, lançado em 2016, deu um passo na direcção certa ao apresentar visuais sólidos, um bom elenco de personagens e um combate fluído, mas é com Arise que a Bandai Namco pretende ir mais além e tentar cativar uma nova audiência.

Tales of Arise é uma história de uma raça escravizada há 3 séculos, que aos poucos aprenderam a lutar pela sua liberdade. Os Dahnans sofrerem imensos horrores às mãos dos Renans, que utilizam tecnologia muito avançada para sugar os recursos do planeta e a vida dos que lá habitam. Arise não se retrai de retratar a exploração e a perda de vidas sob o domínio de escravatura, embora a mensagem nunca seja devidamente explorada. A história deste jogo centra-se em Alphen, um escravo com um misterioso passado que não consegue sentir dor. Ele partilha o papel de protagonista com Shionne, que faz parte da raça escravagista e que não pode ser fisicamente tocada devido a magia que sai do seu corpo. O facto de Shionne ser uma Renan é, sem surpresa, um ponto importante na hora de estabelecer uma relação com os restantes membros da equipa, mas o crescimento desta relação e ver este grupo de indivíduos completamente distintos tornarem-se lentamente amigos uns dos outros é sem dúvida uma das melhores partes do jogo.

Shionne, devido aos espinhos mágicos que automaticamente impedem que alguém toque nela, é quem apresenta um maior crescimento ao longo da história, porque até então não estava habituada a conviver com outras pessoas. Ainda assim, as restantes personagens também evoluem ao longo da campanha, porque esta não é uma história focada só em eventos globais. Todas as personagens têm os seus problemas pessoais, dúvidas e arrependimentos, e têm de lidar igualmente com os efeitos da colonização e escravatura. E isto é retratado várias vezes ao longo da campanha, principalmente quando se chega a uma nova área e se começa a conhecer o seu historial e o que se perdeu. Todos reconhecem que têm de aceitar o que aconteceu e seguir para a frente com o objectivo de criar um mundo melhor, mas é mais fácil dizer do que fazer. E claro, não sendo um grupo homogéneo, vão existir muitos choques de cabeça. Confesso que a grande animosidade existente no início entre as personagens estava a tornar difícil gostar da dinâmica de grupo, mas com o progredir da história, as personagens foram-se abrindo mais e a interacção umas com as outras foi mudando de tom. De salientar também o bom voice acting em inglês, que inclui actores como Ray Chase (Alphen) e Erica Lindbeck (Shionne).

No entanto, a segunda metade da campanha não é tão forte como desejava devido à estrutura apresentada e algumas revelações são visíveis a milhas de distância. O forte de Arise é sem duvida as personagens e suas motivações, a forma como aprendem a coabitar o mesmo espaço e como lentamente se vão tornando amigas. Sim, Arise tem a sua dose de tropes, mas é algo esperado dentro do género e da série. Mas mesmo com uma segunda metade não tão forte, as cerca de 40 horas que passei em Arise foram muito agradáveis. E quando comparado com os títulos anteriores, Arise oferece algumas melhorias gerais muito úteis, como um sistema de fast travel disponível logo desde o início e com mais pontos de viagem. Isto facilita imenso as alturas em que se quer apanhar materiais ou realizar sidequests. Por sua vez, os skits regressam, mas tenho de dizer que não gostei tanto de os ver como nos jogos anteriores. Estas sequências estilo BD são muito frequentes, por vezes mostrando três de seguida, e não têm um bom equilíbrio entre dar informação do mundo e fornecer uma dose de comédia.

Vesperia continua a ser o meu Tales favorito, mas um aspecto justamente criticado é a rigidez dos combates. Berseria mudou isso e tornou o combate mais fluido e focado em combos, e Arise dá mais um passo nessa direcção. Utilizar Artes e perfect dodges irá fazer aumentar uma barra que, por sua vez, abre a possibilidade de duas personagens combinarem forças para executar um ataque especial. Além disso, há medida que se leva dano e se executam perfect dodges, as personagens entram num estado de overdrive por tempo limitado em que as Artes não acarretam qualquer custo e, posteriormente, é possível executar um derradeiro ataque. Em cima disto, cada uma das personagens tem o seu próprio estilo e mecânicas de combate. Alphen, por exemplo, têm uma mecânica de risco/recompensa em que executa ataques mais fortes em troca de alguma da sua vida.

Outra das adições de Arise ao sistema de combate é a introdução de uma habilidade especifica de cada personagem, que é associada ao d-pad e que podem ser usadas para contra-atacar qualquer coisa que o inimigo faça. Por exemplo, Rinwell tem a habilidade de interromper e roubar a magia que os inimigos estão a preparar para lançar, permitindo-lhe assim ser ela própria a lançar essa magia. Por sua vez, a habilidade de Law permiti-lhe quebrar a defesa dos adversários, algo extremamente útil quando se enfrenta inimigos com shield ou que tenham outro tipo de defesa igualmente eficaz. O sistema de combate de Arise oferece várias mecânicas, mas tudo é introduzido aos poucos e após os jogadores terem tido tempo suficiente para aprenderem a utilizar a mecânica apresentada anteriormente.

O derradeiro teste às habilidades vem através de monstros especiais opcionais que habitam algumas áreas e de batalhas de bosses. Estas lutas de bosses, particularmente as que acontecem no final de cada zona, são um verdadeiro teste à aprendizagem das diferentes mecânicas e sistemas de combate. As arenas destes combates são maiores e os bosses têm habilidades com uma maior área de efeito, capazes de derrotar a equipa inteira caso não se tenha cuidado. Todas as lutas de boss são uma culminação da área em questão, desde fazer um bom uso das novas habilidades adquiridas pelo caminho como também ao expandir a forma como os inimigos dessa zona dão uso aos seus ataques. Alguns bosses têm um ligeiro aumento de dificuldade, mas nada que seja considerado injusto e muito menos algo equivalente ao infame Gattuso do Vesperia.

Mesmo quando não se está a combater, aquilo que se faz vai contribuir para uma maior eficácia das personagens nas lutas. Arise tem um sistema de criação de armas e acessórios com os materiais que se encontram espalhados pelos mapas e com itens obtidos nas lutas. O sistema de criação de acessórios é interessante, porque a qualidade dos acessórios está limitado à qualidade dos materiais obtidos e permite, posteriormente, utilizar materiais como combustível para evoluir esses mesmos acessórios e receber mais bónus. Além disso, o jogo inclui também um sistema que permite cozinhar diferentes refeições com os seus buffs específicos, como curar uma percentagem de vida após cada luta, aumento de defesa ou um drop rate maior de materiais. E embora isto não tenha influência nos combates, é possível desbloquear novos fatos e outros itens cosméticos ao encontrar pequenas corujas escondidas nos mapas.

Visualmente, Arise corrige uma das principais críticas feitas aos jogos Tales após Vesperia. Vesperia aguentou muito bem o teste do tempo, algo reforçado com o lançamento da versão remasterizada em 2019. O estilo cel-shading do jogo é fantástico, a ponto de ser visualmente mais apelativo que os Tales lançados posteriormente. Arise dá um grande salto neste campo ao oferecer um estilo anime 3D mais detalhado, em particular nos cenários. O jogo não é open world, tendo em vez disso as áreas lineares um pouco maiores, como é tradicional da franquia, mas cada zona oferece uma boa dose de detalhe e variedade. A evolução do detalhe dos mapas comparativamente a Berseria e Zestiria é de louvar.

Tales of Arise pode não ser o melhor jogo desta franquia, mas corrige muitos dos problemas presentes nos títulos mais recentes. O destaque vai para o elenco de personagens e para o bom sistema de combate que, quando combinado com muitas melhorias globais, consegue oferecer uma experiência divertida e cativante. É verdade que o jogo tropeça em algumas ocasiões e nunca vai muito longe na hora de abordar temas muito sérios, mas em termos gerais, a Bandai Namco conseguiu com sucesso injectar nova vida numa franquia que já existe há 26 anos. Até Xillia, a série Tales era o equivalente a comida de conforto; não era sempre a melhor opção em termos de RPG, mas era consistente na boa qualidade da oferta. Arise traz de volta esse sentimento e dá boas esperanças para o futuro desta franquia.

Nota editorial: Cópia fornecida pela editora para efeitos de análise.

Veredito

Nota Final - 8.5

8.5

Com um bom elenco de personagens, um sistema de combate expandido e maiores valores de produção, Tales of Arise consegue implementar uma muito necessária revitalização nesta franquia que existe há 26 anos.

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Ricardo Silvestre

É o editor da ZWAME Jogos e faz um pouco de tudo no site. Gosta em particular de jogos de corrida, jogos de luta e RPG's, mas também não diz que não a um bom jogo com loot.
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