NieR: Automata

9.5 Overall Score

Combate | Animação excelente | Banda sonora fenomenal | História fascinante e imprevisível.

Performance com quebras ocasionais | Alguma repetitividade de missões e conteúdo

Game Info

GAME NAME: NieR: Automata

DEVELOPER(S): Platinum Games

PUBLISHER(S): Square Enix

PLATFORM(S): PC, PS4

GENRE(S): Action RPG

RELEASE DATE(S): PS4: 10/03/2017 | PC: 17/03/2017

Versão testada: PS4

Confesso ter um pequeno grande fraco por jogos estranhos. Sejam mecânicas, visuais, formas de narrativa, enfim, algo que me consiga surpreender acima de tudo. O primeiro Nier não foi um jogo muito bem recebido pela crítica, e como tal houve muitos que o puseram de imediato de lado. Quem o experimentou, e viu o que o jogo tinha para oferecer, ficou deslumbrado não só pelo diálogo, banda sonora, mecânicas, personagens e aparente falta de vergonha, sempre saudável diga-se, mas também pela forma de contar a sua história.

Amado por uns e simplesmente ignorado por outros, o jogo criou uma considerável base de fãs. Houve, no entanto, críticas a um aspeto que de forma geral era considerado mau, o combate, algo que também concordo. Seja pelas falta de opções, falta de ritmo, falta de simplesmente ser competente naquilo a que se propunha. Num anúncio que surpreendeu muita gente, Yoko Taro, diretor do primeiro jogo, anuncia uma parceria com a Platinum Games para uma sequela, o que de imediato pode resolver o maior problema do jogo anterior, a sua jogabilidade.

Sabendo que nem sempre as coisas são lineares como aparentam, foi com alguma cautela que comecei a aventura que é Nier Automata, não só por jogar mais um jogo de uma das empresas que mais admiro na indústria, mas também por saber que todos os elementos mais peculiares da cabeça de Yoko Taro estariam presentes.

Não será a forma mais original de nos presentear um começo de história, mas ao que parece a raça humana foi quase aniquilada por extraterrestres que invadiram o nosso planeta. No processo, criaram um exército de máquinas que transformaram a paisagem para quase deserta, com pequenos campos de humanos que tentam sobreviver depois do caos. Os humanos que conseguiram fugir refugiaram-se na lua, e mais tarde criam a sua própria arma de contra-ataque, YoRHa, unidades androide que tentam recuperar o controlo para a humanidade.

Será correto dizer que se trata de um aventura de reconquista? Sim e não, pois a campanha torna-se muito mais pessoal do que ao primeira aparenta. Pessoal? Mas então não estamos a falar de máquinas? Pois, isso seria desvendar coisas que agora não interessam, e será após umas belas surpresas que ficamos a saber mais do que se passa com toda esta situação. Tal como o jogo anterior não esperem perceber o que quer que seja quando virem passar os créditos pela primeira vez. Primeira vez essa que poderá chegar mais rápido do que imaginam, e não estou a falar da campanha ser pequena, mas sim da mente perversa de Yoko Taro, que gosta de nos pregar partidas. Existe uma natureza quase episódica de toda a aventura, e se pararem de jogar quando pensam que o jogo acabou, não só não vão perceber o que acabou de acontecer, como vão perder uma parte muito significativa da história que ainda está por contar. Aliás, o jogo faz questão de nos avisar, literalmente, que existe mais conteúdo para além do que aquele que achamos que é o final.

Para além de toda estranheza de certas situações, vemos por vezes conflitos muito interessantes, isto dado a natureza dos protagonistas. Falo concretamente da dicotomia de máquina vs. humano. É muito frequente sermos brindados com diálogo, quer de um lado ou outro, onde realmente o nosso cérebro é levado a questionar certas ações que tomamos/presenciamos. O constante turbilhão de emoções, que nos são indicadas sempre como proibidas, leva a que para além dos personagens, também nós façamos questões do que realmente estamos a fazer, e claro da inevitabilidade das coisas.

Por fim, não, não precisam de jogar o jogo anterior para perceber o que se está a passar com o mundo deste jogo. Irão sim perder alguns detalhes e pequenas lembranças que remontam ao título anterior, mas nada de significativo.

Será fácil olhar para a jogabilidade deste jogo e compará-lo a outros da Platinum. Apesar de haver similaridades, é um pouco difícil traçar comparações diretas. Não é tão exigente como outros a nível de combate, mas também não é despido de opções muito interessantes para quem as procurar. Resumindo, é o sangue novo da companhia que cria o primeiro RPG de ação de referência para os que vierem a seguir.
Dito isto, não nos enganemos, no que toca ao combate o jogo é tudo aquilo a que estamos habituados. Existe um foco cirúrgico em todo o trabalho de animação do andróide 2B, que vão controlar de início. Ao nosso dispor temos 4 categorias de armas, com espadas, longas e mais curtas, lanças, e finalmente armas para usar nas mãos, que podem ser melhoradas. Cada uma delas consegue ser diferenciadora da anterior com ataques leves e fortes para cada uma, e a combinação entre o uso de duas armas e a possibilidade de trocar, em tempo real, para outro set, com outras duas, abre muitas possibilidades para que possamos desfrutar de todo o esplendor do combate. Apesar de algo automático em alguns golpes, consegue ser muito satisfatório na maioria do tempo, se bem que pessoalmente preferiria um pouco de controlo mais direto em certas combinações, e mais alguma variedade nos movimentos das armas. Para além disso temos ao nosso dispor o nosso POD, que para além de nos dar informação variada, pode ser disparar balas, tendo acesso também a um ataque especial.

A componente mais clássica de RPG do jogo envolve coisas como habilidades, missões secundárias, exploração, e outras atividades. É aqui que começamos a ver alguns dos problemas que apoquentam o primeiro RPG mais a sério da companhia. O modo como equipamos habilidades está diretamente relacionado com os nossos personagens, portanto, encontramos, quer por recolha pelo cenário, ou por lutas, loot variado que nos permite ter uma série de habilidades. Coisas como mais vida, mais dano, mais defesa, um maior tempo de invencibilidade após uma esquiva bem sucedida, etc. Podemos, para além de equipar pequenos chips com habilidades, fazer uma fusão entre os que forem iguais para que assim estes subam de nível ficando mais fortes. A quantidade de chips que podemos equipar é limitada, quer por espaço disponível ou por ocuparem demasiada memória, daí que terão que ser feitas escolhas para transformar o personagem naquilo que quisermos. Uma nota final para mencionar, como parece ser frequente nos dias que correm, uma influência da série Souls, ou seja, se morrermos, os chips equipados ficam no nosso local de game over, junto com o nosso corpo. Se não os formos recolher, ou se morrermos no caminho para lá, eles desaparecem para sempre. Esta componente também fica disponível online, mas com os corpos dos outros jogadores, onde podemos recolher os chips dos corpos, ou escolher reanimar outros jogadores para lutarem ao nosso lado por um determinado tempo.

É um pouco difícil chamar mundo aberto ao cenário do jogo. A melhor comparação que me ocorre será algo como o primeiro Dark Souls, ou seja, é possível visitar a maior parte das localidades percorrendo o caminho a correr, no entanto, estas áreas têm frequentes pontos onde as paredes invisíveis não nos deixam avançar. Não deixa de ser grande e interessante, apesar de visualmente deixar um pouco a desejar, mas mais sobre isso à frente.
É nas viagens que vamos fazendo pelas diferentes áreas que vamos descobrindo missões secundárias, que a partir de um certo ponto começam a aparecer debaixo de todas as pedras. É nesta parte onde encontramos alguns personagens muito caricatos, como máquinas que se indagam sobre o sentido da vida, outros que veneram deuses de forma muito acérrima, não esquecendo os nossos belos humanos que ainda resistem. A maior parte destas coisas secundárias envolvem quase sempre algo muito similar, como apanhar um determinado número de partes que alguém precisa, ou então o belo moço de recados. Se ao primeiro é sempre interessante encontrar muitas coisas estranhas nestas missões, também rápido se percebe que muitas delas não vão fugir deste esquema, tornando-as a longo prazo enfadonhas. Convém, no entanto, fazerem as que puderem, pois para além de as recompensas serem boas, existem certos itens que só ali são possíveis de ganhar.

A exploração tem também aqui um grande papel, pois uma parte de cenário, ao primeiro, não nos parece possível de navegar, mas normalmente os cantos de determinadas áreas estão bem escondidos, e podem levar algumas vezes a novos achados, bem como outras missões. Podem ainda inclusive pescar, o que para além de nos dar bom dinheiro, vendendo o peixe claro está, pode levar a recompensas únicas.
Tal como no primeiro Nier, somos confrontados, de vez em quando, com mudanças de perspetivas da camera, que mudam o género de jogo que estamos a jogar. É frequente em certas áreas o jogo mudar para uma perspetiva em 2D, tornando a experiência bastante dinâmica e fresca, nunca acontecendo nenhuma transição menos conseguida.
Não vamos tomar decisões importantes no que quer que seja, mas existem situações onde temos por vezes de fazer determinadas escolhas, ou pelo menos é nos dada essa opção. Não me pareceu que houvesse qualquer consequência diferente para cada uma das escolhas, mas o caminho poderá por vezes ser algo diferente, levando, no entanto, ao mesmo destino.
É um jogo de fases, e como referido antes, contado quase por episódios. Temos um ciclo de apresentação, outro de exploração, outro de exposição, quer no combate quer na narrativa, e por fim um ciclo mais clássico da Platinum, com espetáculo e insanidade para dar e vender. E se depois disto ainda não estiverem satisfeitos, o diretor do jogo faz questão de nos dizer: “Ainda há mais meus queridos”.

Visualmente o jogo é competente, mas tem falhas que podem estragar alguma da arte que temos presente. Comecemos pelos personagens, com uma mistura estranha entre vitoriano e gótico, 2B e restantes são impressionantes no design que têm, sobretudo quando vemos algo tão contrastante como o seu carácter. Já o mundo é visualmente desinspirado, o que aliado a texturas pobres e falta completa de uma solução de anti-aliasing torna muito do cenário bastante irregular. Do outro lado temos localizações tiradas quase de uma aventura da Disney, onde vemos que a arte continua a salvar muitos dos locais por onde passamos. Já a performance é boa no geral, mas acontecem muitas situações onde a coisa não fica de todo boa, com constantes quebras dos 60fps prometidos, especialmente quando temos cenas mais intensas nos combates.
É um pouco estranho, talvez, dizer que há um aspeto do jogo que se supera a tudo o que foi escrito para atrás, que é a sua banda sonora. Keiichi Okabe, compositor do primeiro Nier, volta para fazer novos arranjos e… bem… é um pouco difícil descrever as sensações que determinadas músicas nos transmitem, desde alegria, tristeza, compaixão, etc. Se isso não bastasse, o jogo é capaz de durante os momentos precisos de mudança de diálogo ou acontecimentos marcantes, mudar drasticamente o ambiente em volta de uma situação com notas meticulosamente introduzidas, provando mais uma vez, se é que necessitasse de ser provado, que a música tem um papel fundamental em nos envolver no que estão passar os personagens digitais à nossa frente.

É complicado dar um valor de horas para ver tudo o que o jogo tem para oferecer. O meu primeiro episódio acabou por volta das 25 horas, com uma grande parte das missões secundárias feitas e com exploração bastante alargada. É bastante divertido de jogar, pois o combate aliado à constante procura de respostas, um elemento estranho nos jogos da Platinum, impele a nossa curiosidade para ver o que a mente deste estranho homem chamado Yoko Taro tem para nos mostrar. Podem contar com cerca de 50 horas para ver tudo o que o jogo tem para oferecer, isto claro se estiverem dispostos a isso.
Não é um jogo fácil de recomendar. É um bom jogo? Claro que sim, é muito bom. Tem problemas que são tradicionais de outros RPG, como repetitividade de missões, problemas de performance e alguns diálogos estranhos? Sim, tem. Mas tem também uma história que nos deixa de boca aberta a pensar no que acabou de acontecer, agradecendo o facto de ainda haver pessoas com mentes que não seguem as regras normais e tornam certos momentos fascinantes, e ao mesmo tempo inigualáveis.

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