Análises

Resident Evil 2 (Remake)

Revisitar Raccoon City

Versão testada: PlayStation 4 Pro

“Imaginem uma cidade repleta de zombies que se banqueteiam com cadáveres ainda quentes. Imaginem que são um dos sobreviventes nessa cidade e que têm de encontrar a saída”. É assim que começa a análise a Resident Evil 2 da Revista Oficial PlayStation, publicada em Maio de 1998. Pois é, já lá vão mais de 20 anos desde o lançamento deste título na original PlayStation e também já lá vão 20 anos desde a primeira vez que entrei na esquadra de Raccoon City. Apesar de ter passado tanto tempo, ainda estão bem presentes na memória alguns dos momentos que vivi nesse jogo. O não saber se iria ser agarrado ao passar perto de uma janela na esquadra, o não saber se aqueles corpos na morgue se iriam levantar, ou o simples facto de não saber o que esperar após terminado o “abrir da porta” para outra sala. Foi então com bastante entusiasmo, e alguma cautela, que peguei neste novo Resident Evil 2.

Para aqueles que tiveram o descaramento de nunca terem jogado o original Resident Evil 2, a premissa é bastante simples. O jogo segue as pisadas de duas personagens: Leon Kennedy e Claire Redfield. Leon é um novato na polícia de Raccoon City, enquanto que Claire é uma forasteira, que viaja para esta cidade em busca de pistas que levem ao paradeiro do seu irmão, Chris Redfield, um dos protagonistas do primeiro Resident Evil. Leon e Claire cruzam-se numa estação de serviço, após darem de caras com zombies. Leon sugere refugiarem-se na esquadra da polícia pois, em teoria, seria o sítio mais seguro. Mas pelo caminho, eis que acontece um acidente que os leva a separarem-se. Assim sendo, combinam encontrarem-se na esquadra. Mal sabiam eles que a esquadra esconde muitos e terríveis segredos, e que de “sítio seguro”, não tem nada.

Este projecto foi anunciado como sendo um remake, mas diria que também pode ser considerado uma reimaginação do clássico título. Independentemente do termo que queiram usar, não esperem uma recriação 1:1 do original Resident Evil 2 com melhores gráficos e uma camara de jogo diferente. Mas isto não é necessariamente mau, pois certos elementos presentes no original não iriam resultar tão bem num título com uma estrutura moderna e com uma visão na terceira pessoa, especialmente porque a Capcom tentou colocar um maior realismo ao jogo. É estranho estar a falar em “realismo” num jogo de zombies, mas ainda assim, o resultado final é algo bastante credível ao invés de piroso. E mais importante que tudo, é que esta nova versão do Resident Evil 2, apesar de tantas diferenças, não só consegue reter tudo aquilo que tornou o original tão bom, como consegue incutir um maior peso ao ambiente.

Para dar algum contexto, vou usar o inicio do jogo como exemplo. Na versão original, a apresentação de Leon e Claire, assim como a apresentação dos zombies como ameaça, é feita exclusivamente através de uma cutscene. Só começamos a controlar uma das personagens após o acidente. No remake, a cena da estação de serviço é usada como um mini tutorial, que serve para indicar como se corre, como se aponta e dispara, e como se usam os itens. O próprio cenário tem uma caracterização diferente. Na versão original era uma zona bem iluminada, enquanto que no remake está tudo às escuras e já com um aspecto mais caótico. E o ambiente neste pequena zona é apenas um aperitivo do que se avizinha. No geral, adorei o estilo mais opressivo e sombrio do remake, enquadrando-se perfeitamente com o género em que se encontra, mas sem perder a identidade própria.

Não sei se sou o único com a mesma opinião, mas como inimigos, acho os zombies muito mais assustadores que os “sacos de carne” que começaram a aparecer em títulos Resident Evil mais recentes. Talvez seja por ainda reterem um traço de humanidade, mas a verdade é que a primeira vez que um grupo de zombies apareceu de uma esquina, isto já dentro da esquadra, foi algo bastante assustador e opressivo. Vê-los lentamente a vir na minha direcção com aqueles olhos vazios enquanto absorvem balas é desconcertante. A Capcom de facto deu bastante atenção aos zombies, como tal, existe uma maior variedade de modelos face ao que havia na versão original. Mas não foi só na variedade que a produtora se esforçou. As próprias animações são brilhantes. Existem diferentes animações conforme a direcção que um zombie ataca, diferentes animações conforme a zona onde levam um tiro, e diferentes sons conforme o modelo em questão e o estado em que estão. São inimigos bastante mais complexos do que os apresentados na versão original. Houve um grande esforço em apresentar banais zombies como uma enorme ameaça. Os restantes inimigos, mesmo os mais fortes, como o Licker, também são bastante mais complexos e difíceis de lidar.

Sem surpresa, a câmara na terceira pessoa é outro factor a tornar esta experiência diferente da do original. A perspectiva é semelhante à usada em Resident Evil 6 e Resident Evil Revelations 2, havendo a possibilidade de aumentar um pouco o campo de visão. Escusado será dizer que passar de câmaras fixas para uma câmara na terceira pessoa torna tudo mais pessoal e assustador. Nunca se sabe o que se esconde atrás de cada esquina e há sempre aquele receio de que algo nos irá aparecer de surpresa pelas costas. Os controlos são fáceis de apanhar, mas se por algum motivo não tiverem boa pontaria, não vão ficar de parte. Existem três dificuldades à escolha, sendo que na mais fácil existe um aim assist generoso. Se, por outro lado, quiserem um maior desafio, a dificuldade mais alta irá satisfazer esse desejo. Inclusive, apenas irão conseguir gravar na máquina de escrever. Mas independentemente da dificuldade, e mantendo a tradição, há que saber gerir o inventário e os vários recursos à disposição, incluindo as munições e as curas.

Não vou entrar em muitos detalhes sobre a narrativa para não estragar as surpresas, mas em termos gerais, existem duas campanhas: uma para o Leon e outra para a Claire. Completar pela primeira vez com uma das personagens, desbloqueia a segunda variante para a outra personagem. É uma espécie de Cenário A e Cenário B como existia no original Resident Evil 2, em que existem diferenças na ordem em que as coisas são feitas. No que toca a locais, irão visitar os locais do jogo original, mas também irão explorar um novo sítio. E claro, vão ter puzzles para completar, alguns deles novos, que vos farão andar de um lado para o outro, sempre em alerta. Se estão preocupados no que toca à longevidade, não estejam. Demorei pouco mais de 8h30 a completar a primeira campanha e cerca de 7 horas a passar a segunda campanha. Depois ainda há o 4th Survivor, segredos para descobrir e, para aqueles que querem colocar as suas habilidades à prova, podem tentar completar o jogo dentro de um tempo limite e com uma melhor pontuação. Resident Evil 2 é um jogo com uma boa dose de conteúdo.

O propósito de um remake é também melhor os aspectos técnicos, e aqui é mais um caso de sucesso. O jogo está atulhado de detalhes que puxam o jogador para a acção. Ver a cidade em pantanas com zombies espalhados pelas ruas a comer cadáveres, enquanto corremos por entre carros a arder na tentativa de chegar à “segurança” da esquadra, ou a quantidade de atenção colocada na esquadra para demonstrar o caos que esta situação trouxe à cidade, incluindo objectos espalhados, sangue por todo o lado, barricadas, e alguma dose de sangue. Os próprios zombies estão cheios de pormenores que os tornam horripilantes, como a textura da pele, quantidade e gravidade das feridas, estado de podridão e até os danos que fazemos com cada tiro. Isto tudo acompanhado por 60 FPS constantes, pelo menos na versão testada, que foi a versão PlayStation 4 Pro.

A banda sonora não é a mesma que a do original Resident Evil 2 e, embora não seja extraordinária, faz um bom trabalho a criar tensão e a acompanhar os momentos de maior acção. Mas se quiserem a experiência clássica, podem sempre adquirir à parte a banda sonora clássica, dando assim a possibilidade de jogar o remake com algumas das músicas e efeitos presentes na versão de 1998. Por sua vez, o voice acting é na generalidade de boa qualidade, tendo conseguido retirar alguma daquela pirosidade presente nos diálogos do jogo original. Contudo, existe uma ou outra instância onde as personagens poderiam demonstrar um pouco mais de medo e surpresa, especialmente durante as lutas de boss.

Ficou muita coisa por dizer, alguma para não tornar esta análise num testamento e outra para legitimamente não estragar a surpresa a ninguém, mas este Resident Evil 2 foi uma grande surpresa. Nem sempre este tipo de projectos conseguem pegar no conteúdo original e modernizá-lo sem estragar o que o tornou único, mas a Capcom conseguiu isso com este remake. Deduzo que alguns possam ficar algo desapontados com as alterações e algumas das ausências, mas é preciso compreender que um remake não visa pegar nas mesmas coisas e simplesmente adicionar mais em cima. É preciso perceber o que funciona e o que não funciona e expandir o conceito do que funciona ainda mais. E foi isso que foi feito aqui. Resident Evil 2 Remake é essencialmente uma recriação da clássica aventura de horror, que apresenta uma clara visão do que precisa para ser tão marcante como o original, não só dentro da franquia, como também do género de jogos de horror.

Nota editorial: Cópia fornecida pela editora para efeitos de análise.

Veredito

Nota Final - 9.5

9.5

Cheio de nostalgia e de novos desafios, Resident Evil 2 é uma exemplar reimaginação do clássico título lançado originalmente em 1998. Mas melhor ainda, consegue entregar uma das melhores atmosferas que o género de horror já viu.

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