Análises

Death Stranding

Fragile mas não tão frágil.

Versão testada: PlayStation 4 Pro

O primeiro trailer de Death Stranding é tão misterioso e confuso como o trailer mais recente. Se estão familiarizados com os trabalhos de Hideo Kojima, certamente que devem ter uma pequena ideia do tipo de estranheza que ele é capaz de entregar, mas se nunca ouviram falar neste individuo, então, é melhor apertarem bem os cintos porque a viagem vai ser louca. Depois de Metal Gear Solid 5, Kojima regressa agora com Death Stranding, o seu primeiro projecto fora da alçada da Konami e um que visa tentar algo de novo. Assim sendo, há uma inescapável questão que é imperativo colocar: numa escala de 1 a 10, qual é o nível de “kojimice” de Death Stranding?

Entre bebés em casulos, entidades espirituais e armamento que utiliza fluídos corporais do protagonista, atrevo-me a dizer que o nível de “kojimice” é elevado. Nós seguimos as pisadas de Sam Porter Bridges, um estafeta da empresa Bridges que anda pela paisagem desértica a distribuir importantes encomendas aos sobreviventes de incompreensíveis eventos pós-apocalípticos. Durante uma missão no terreno, Sam e mais dois operativos do Corpse Disposal Team 6 vêem-se cercados por BTs, e acabam por originar um voidout que mata todos e destrói tudo ao seu alcance. Confusos? Não se preocupem, pois esta sequência de eventos é introduzida com maior contexto e percebe-se bem durante o jogo. Na consequência desse mesmo evento catastrófico, Sam é praticamente forçado a desempenhar um conjunto de tarefas que têm como objectivo final conectar o país de uma ponta a outra, com uma rede de informação, chamada Chiral Network, e pelo caminho, talvez encontrar pistas para a origem do que causou tanta destruição pelo mundo.

Este é o mote que empurra Sam para uma longa, estranha e misteriosa aventura por terras desoladas. Sendo um jogo saído da mente criativa do Kojima, vão encontrar muitos termos para decorar, como BTs, BBs, voidouts, DOOMS, Beaches e por aí fora. Ao início pode ser complicado seguir o fio à meada com tanta informação debitada, mas há medida que se vai avançando na campanha, tudo se torna mais digerível e as peças do puzzle vão encaixando umas nas outras. Eu não vou entrar em muitos detalhes sobre o enredo de Death Stranding, porque isso iria estragar parte do mistério que envolve este título, mas podem contar com uma narrativa complexa e com umas quantas reviravoltas inesperadas. Quando pensam que já desvendaram o mistério, eis que surge uma bola curva vinda do nada. O elenco de personagens é variado, carismático e todos têm as suas motivações para fazer o que fazem, algo que também vamos descobrindo ao longo do tempo. Todas as personagens têm o seu papel e a sua importância na história.

A narrativa desenvolve-se a um ritmo decente e encaixa bem no tipo de jogo que é; um não tão focado em disparar para tudo o que mexe. Talvez seja por eu ser fã de entretenimento que utiliza cenas paranormais e/ou que tem sempre algo extravagante a acontecer nos bastidores, mas a verdade é que fiquei preso do início ao fim para saber mais sobre as motivações das personagens e sobre o que causou tamanha devastação no mundo. Eu disse que o ritmo de desenvolvimento da narrativa era bom, coisa que é verdade, mas há uma excepção: o capítulo 3. Não sei exactamente o porquê, mas este capítulo é consideravelmente mais longo que todos os outros. Quero dizer, o problema em si não é o ser mais longo, mas sim os pontos importantes da narrativa estarem demasiado espaçados uns dos outros, dando a sensação de que este capítulo, a partir de certo ponto, se começa a arrastar. Tirando este percalço, Death Stranding parece-me um jogo bastante equilibrado na forma como apresenta a sua narrativa e vai mais de encontro aos trabalhos do Kojima anteriores a Metal Gear Solid 5.

Há já algum tempo que ando saturado da fórmula open world, como tal, um jogo que utiliza este formato tem de ser muito bom ou tem de fazer algo de diferente para me conseguir manter motivado e entusiasmado a longo prazo. Seria de esperar que Death Stranding, que envolve muitas viagens de cá para lá, me aborrecesse rapidamente, mas não foi isso que aconteceu. Em parte, a razão foi pela temática da narrativa, mas também se deveu à forma como a navegação transversal foi incorporada neste jogo. Na maioria dos jogos open world, ir de um local a outro não oferece grande propósito a nível de jogabilidade ou mesmo de desafio, mas em Death Stranding, esta componente está perfeitamente integrada no ciclo de jogabilidade. Aqui, é preciso considerar a distância da nossa entrega, ver qual o melhor caminho para lá chegar, e pensar em que itens é melhor levar para facilitar a nossa jornada. A navegação em Death Stranding é um desafio por si só e requer mais controlo por parte do jogador, e foi essa a razão porque nunca me aborreci nas quase 40 horas que demorei a terminar o jogo, por mais longa que fosse uma missão.

O desafio de fazer uma entrega vem de vários factores. Primeiro, há o terreno. Por vezes, o local de entrega está do outro lado de uma montanha ou a distância que temos que percorrer é grande ou a carga é muito frágil, como tal, ter uma escada, uma corda ou um exoesqueleto pode ajudar a ultrapassar estes obstáculos. Depois, há o desafio oferecido pelos inimigos. Os MULEs são inimigos humanos, que têm algumas bases espalhadas pelo mapa. Eles são o típico inimigo humano, na medida em que podemos utilizar stealth para os colocar inconscientes e progredir por essa área controlada por eles. Alternativamente, podemos adoptar uma abordagem mais directa e abrir caminho à pancada ou utilizar armas não letais para os incapacitar temporariamente.

Depois, existem os BTs. Se viram algum dos trailers de Death Stranding divulgados até à data, certamente que sabem do que falo. Refiro-me aos inimigos que parecem fantasmas, que pairam no ar e que têm um cordão umbilical a os unir. As secções com os BTs apresentam sempre uma grande dose de tensão, em particular nos primeiros capítulos, pois estamos limitados a nível de opções. A sua presença é antecedida pela aparição da Timefall, chuva que envelhece tudo o que toca (incluindo mercadorias). Sam não os consegue ver, mas consegue sentir a sua presença. É aqui que entra a geringonça que ele tem no ombro esquerdo e o BB, o bebé no casulo. Quando estamos parados, o BB permite ver a silhueta dos BTs que estão nas nossas imediações, e a geringonça serve como um aviso de proximidade (visual e sonora). Como disse anteriormente, estas sequências são stressantes, em particular no início, mas mesmo quando estamos melhor equipados, os BTs conseguem ser um problema.

Como já devem ter percebido, fazer entregas não é assim tão simples devido a estes elementos e também devido à necessidade de fazer microgestão do peso, distribuição e durabilidade da carga que carregamos, do desgaste do nosso equipamento e da quantidade de itens de cura. Para facilitar um pouco as entregas, Death Stranding tem uma componente online. Sempre que ligam um terminal à Chiral Network, o mapa desse sector passa a mostrar alguns itens de outros jogadores. A quantidade de itens que aparecem no mapa é limitada para não atafulhar o mapa com objectos alheios, mas são em número suficiente para ajudar nas viagens. Podem, por exemplo, encontrar um gerador de outro jogador, podendo assim recarregar a bateria do veículo e/ou do exoesqueleto, uma ponte entre montanhas ou um abrigo contra a Timefall. Estes objectos têm uma durabilidade que vai descendo conforme levam com a chuva, portanto, não ficam permanentemente no vosso mundo. Vocês podem construir estes objectos desde que tenham os materiais necessários, mas aproveitando o que já existe de outros jogadores, poupam a necessidade de procurar e de gastar recursos.

A componente online também se espalha às encomendas. Ao longo das viagens, vão encontrar encomendas perdidas pelo mapa, encomendas essas que são offline ou online. Isto é puramente opcional, como tal, não têm a obrigação de pegar em tudo o que vos aparece à frente. Mas caso apanhem, podem deixar essa encomenda perdida no terminal mais próximo, que depois ficará disponível para outro jogador entregar se assim o desejar, ou podem vocês próprios ir ao destino fazer a entrega. A diferença entre estas duas opções está na classificação obtida. Se deixarem a encomenda para outro jogador, receberão uma classificação menor. Esta classificação serve para subir o rank do Sam, o que, consequentemente, aumentará vários atributos como maior equilíbrio, capacidade para carregar mais peso e mais stamina.

A campanha tem uma boa longevidade. Eu terminei o jogo com quase 40 horas e tendo deixado muitas missões/entregas opcionais por fazer, como tal, Death Stranding oferece bastante conteúdo. De referir que as missões opcionais podem ser feitas em simultâneo com as missões principais, e ajudam a subir o nível de ligação entre Sam e os vários NPCs. Subir o nível de ligação permite desbloquear alguns itens de personalização, como cores para os veículos, mas também novas ferramentas. Isto é particularmente útil se forem jogar em níveis de dificuldade mais altos. Por falar em dificuldade, aqueles que não têm interesse no desafio, têm à sua disposição o nível de dificuldade “very easy”, podendo assim virar toda a atenção para a narrativa. Acabada a campanha, podem explorar o mapa à vontade e completar as missões secundárias que tenham deixado para trás.

Mas Death Stranding não é só fazer entregas; também tem tiroteios. A partir de certa altura, vão ganhar acesso a armas, sendo a primeira chamada Bola Gun, que é uma arma não letal contra humanos. Esta arma é muito útil para aquelas alturas em que uma missão vos empurra para territórios dos MULEs. Eventualmente, vão ganhar acesso a handguns, assault rifles e shotguns, com variantes letais e não letais, mas há medida que isto vai acontecendo, os MULEs também vão ganhando maior capacidade de fogo. Em qualquer dos casos, estas armas são extremamente úteis quando stealth deixa de ser uma opção viável. A componente shooter é boa, com um feeling talvez semelhante a Metal Gear Solid 5, mas sem o espalhafato que o Big Boss tinha, por razões óbvias. Sam não é nenhum soldado de elite, como tal, ele não rebola e não rasteja pelo chão e também não é o supra sumo de combate corpo-a-corpo, mas faz as acções normais esperadas de alguém que não foi treinado na arte de guerra.

Porém, e ao contrário da vasta maioria dos jogos de acção, matar humanos é altamente desaconselhado, daí existirem variantes não letais das armas. Eu não vou explicar o porquê, pois isto é demonstrado no jogo, mas… digamos que matar pessoas tem consequências. Eu sei, chocante. Além dos encontros contra humanos e BTs no mapa, também existe um outro tipo de batalha. O trailer de Death Stranding, divulgado em Maio deste ano, oferece um vislumbre destas sequências, mas sendo pontos importantes da narrativa, não vou comentar muito mais, a não ser dizer que são algumas das melhores cenas do jogo e são também momentos muito intensos. E acho que também importa referir que existem batalhas de bosses, cujo design certamente foi buscar alguma inspiração ao horror cósmico.

Uma das particularidades das sequências que envolvem os BTs está nas armas, ou melhor, nas munições usadas. Por razões que vou deixar para vocês descobrirem, as munições incluem o sangue do Sam, pois o sangue dele é nocivo para os BTs. Isto obriga a que andemos com alguns sacos de sangue, que são recolhidos quando Sam dorme num abrigo, para podermos fazer munições contra BTs ou para nos curarmos durante o terreno. Há que estar preparado para todas as eventualidades. Esta é uma mecânica bastante curiosa, pois obriga a escolher as batalhas. Afinal de contas, o mesmo recurso serve para atacar e para defender, e é um recurso finito.

A nível técnico, Death Stranding é um título muito belo, o que não é surpresa tendo em conta que utiliza o motor de jogo Decima, que é o motor desenvolvido pela Guerrilla Games e utilizado em Horizon Zero Dawn. O modelo das personagens é de grande qualidade e os cenários são extremamente bem detalhados. O jogo corre a 30 FPS e na PS4 Pro não notei quaisquer quebras de fluidez. Na verdade, mesmo tendo jogado semanas antes do lançamento, Death Stranding é um jogo muito bem polido, pois não me lembro de ter encontrado bugs ou problemas técnicos. Se há um aspecto que merece crítica é a falta de opções de acessibilidade. Esta situação é demasiado frequente, mas Death Stranding é mais um jogo a ter legendas pequenas e ícones minúsculos dos botões no ecrã. Os menus também poderiam ser sido melhor organizados, pois estão cheios de ícones e descrições, tornando tudo desnecessariamente confuso.

A banda sonora é excelente e acompanha todos os momentos na perfeição, quer estejamos a viajar calmamente pelas paisagens, a lidar com zonas povoadas por BTs ou a lutar contra MULEs. E de vez em quando, lá surge uma musiquinha para acentuar a sensação de isolamento. O voice acting é também de grande qualidade, coisa que não irá apanhar ninguém de surpresa, tendo em conta que o elenco conta com actores como Norman Reedus, Léa Seydoux, Mads Mikkelsen e Troy Baker. De referir que o jogo está completamente localizado para Português, tanto nas vozes como nas legendas, sendo possível alterar estas duas opções em separado no menu inicial do jogo. Podem, por exemplo, escolher jogar com as vozes originais inglesas e com legendas em português.

Death Stranding não é perfeito, mas as suas imperfeições não estragam a excelente qualidade do pacote. Numa altura onde a divisão das comunidades, a isolação e actos de auto-sabotagem são cada vez mais frequentes na sociedade, Kojima entrega-nos um jogo com uma mensagem completamente oposta, que pode ser interpretada como “a união faz a força”. O menor foco na acção pode não ser tão apelativo para quem queria que Death Stranding tivesse a mesma quantidade de acção a série Metal Gear Solid, mas acho que esse até é um ponto positivo. Nem todos os jogos têm de ser virados para a componente shooter para serem bons e é esse o caso de Death Stranding. Esta é uma obra de grande qualidade, com temas sociais e pessoais que nos fazem reflectir, e com algumas ideias e conceitos muito originais.

Nota editorial: Cópia fornecida pela editora para efeitos de análise.

Veredito

Nota Final - 9

9

Death Stranding é um fantástico título, que nos leva numa aventura de contornos épicos e que nos faz pensar em vários problemas existentes actualmente na sociedade. As personagens carismáticas, a excelente banda sonora e exploração transversal bem implementada, fazem de Death Stranding um jogo recomendado para todos os donos de uma PS4.

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