Análises

The Last of Us Part 1

Reviver o passado

Versão testada: PlayStation 5
Disponível para: PlayStation 5

Esta análise começou ao contrário. A conclusão foi a primeira coisa que escrevi. Estava à espera que fosse mais difícil chegar a um veredito devido à natureza do projeto e ao jogo em questão, mas assim que vi os créditos a passarem, tornou-se muito fácil tomar uma decisão. Lançado originalmente em 2013 para a PlayStation 3 e um ano mais tarde para a PlayStation 4, The Last of Us regressa novamente graças a um remake desenvolvido de raiz para a PlayStation 5. Será que existem muitas diferenças para com o original e será que são significativas o suficiente para melhorar a experiência?

Primeiro que tudo, e para quem nunca jogou a versão original, The Last of Us decorre num cenário pós-apocalíptico devido a uma pandemia causada por um tipo de fungo Cordyceps, que controla os hospedeiros e torna-os agressivos para continuar a propagar a infeção. O início do jogo mostra o ponto de rotura, onde a sociedade deixou de funcionar normalmente, mas o miolo do jogo decorre 20 anos após o início da pandemia. Joel e Tess, contrabandistas profissionais, veem-se encarregados de levar Ellie até ao capitólio, onde um grupo de Fireflies está à sua espera. Como seria de esperar, as coisas não são tão simples, e a porta abre-se para entregar uma narrativa profunda e emocionante. Isto acontece principalmente pelas interações entre Joel e Ellie, que são condicionadas por eventos passados, mas também por personagens que vão encontrando ao longo do caminho.

Ao longo da aventura, é visível o impacto e destruição que 20 anos de pandemia causaram. Edifícios abandonados, carros destruídos, bens de valor sentimental deixados para trás, e mensagens de despedida são o lembrete da fragilidade da vida naquele período de tempo. Mas citando as palavras de Ian Malcolm, do filme Jurassic Park, “a vida encontra um caminho”. Apesar da devastação do mundo, os sobreviventes encontraram uma forma de viver, se bem que essa forma varia de sítio para sítio. Embora este tipo de cenário não seja revolucionário, acho que é preciso dar mérito à forma como se desenrola neste jogo, a ponto de quase uma década depois de ter sido originalmente lançado The Last of Us continuar a estar ao nível do melhor entretenimento feito com este tipo de tema.

Este é um jogo narrativo, como tal, o diálogo e o desempenho dos atores é fundamental para transmitir uma história de qualidade e emotiva. É aqui que entram todas as melhorias técnicas presentes em The Last of Us Part 1. Os cenários foram reconstruidos e as personagens receberam novos modelos e com um maior nível de detalhe. A diferença de duas gerações de consolas realmente faz-se notar e muito. Antes de ter recebido este remake, aproveitei para me preparar e decidi repetir as primeiras horas de jogo no The Last of Us Remastered. Fui do prólogo até chegar a Bill’s Town. Passar do remaster para o remake é um salto significativo em termos de fidelidade visual e no modelo das personagens. Tess, por exemplo, tem agora uma aparência com algumas semelhanças à atriz Annie Wersching, que deu vida a esta personagem. Sam e Henry também têm modelos completamente novos e mais realistas.

Este tratamento também foi dado aos NPC’s. Agora estão muito mais detalhados e têm uma aparência mais distinta uns dos outros. O aumento no nível de detalhe permitiu um salto geracional nas expressões faciais, que agora estão mais próximas com o desempenho que os atores tiveram nas gravações. As personagens parecem agora reais e não bonecos, particularmente nos olhos e nas microexpressões. Esta não foi a primeira vez que joguei The Last of Us, mas estas melhorias fizeram com que alguns momentos emocionais fossem ainda mais duros de assistir que antes.

Mas não foi só isto. Os anos de experiência em fazer jogos single-player narrativos contribuiu igualmente para uma cinematografia aprimorada. Este é um remake totalmente fiel ao jogo original em termos de cinemáticas, mas a maior experiência neste campo traduziu-se no ajuste do enquadramento das personagens em algumas cenas que, com uma boa utilização do efeito depth of field, ausente na versão original, resulta em cenas dignas de um filme ou série televisiva. Para dar um exemplo concreto, relativamente cedo na aventura, Joel e Tess vão à procura do Robert. No jogo original, na cinemática que antecede a primeira luta contra alguns dos seus capangas, Joel e Tess estão ambos afastados da câmara e têm ambos o mesmo destaque na imagem. Neste remake, a câmara está mais próxima das personagens, em particular de Tess, que é quem está a falar. Joel, que apenas está a assistir, está desfocado. Todas as cinemáticas receberam este tipo de tratamento para modernizar a experiência sem retirar a essência do que tornou o jogo original bom. Por falar em cinemáticas, no remake são em tempo real, significando que as armas aparecem durante as cenas e a transição entre cinemáticas e jogabilidade acontece de forma fluída sem qualquer corte como no original.

Continuando ainda na parte gráfica, os cenários também foram revistos e reconstruidos. O layout das áreas é o mesmo, mas o nível de detalhe presente em tudo à nossa volta é enorme. O aumento de detalhe e o aumento de objetos nos cenários fazem com que os locais por onde passamos consigam também fazer parte da história e também mostrar melhor o resultado de duas décadas de pandemia. Diria que em termos gerais, o jogo tem um aspeto melhor que o de The Last of Us Part 2. Não é só o nível de detalhe, mas também a qualidade das sombras e da iluminação que, agora, é mais rica e volumosa. Em termos de opções gráficas, existem várias à escolha: 4K/30 FPS, 60 FPS em 4K dinâmico, e também um modo VRR. Neste modo VRR, para televisões que suportem 120Hz, é possível jogar com o melhor dos dois mundos, ou seja, 4K a 40 FPS para uma experiência fluída. Por fim, caso a vossa TV suporte VRR, há a opção de se poder desligar o bloqueio de framerate. De referir também que estão presentes as opções de desligar os efeitos Motion Blur, Camera Shake e Film Grain.

Mas e em termos de jogabilidade? Joel não consegue rastejar nem desviar-se como consegue Ellie em The Last of Us Part 2, mas verdade seja dita, o jogo não foi pensado para lidar com essas opções de mobilidade. Os encontros não iriam funcionar da mesma forma e alterar demasiado poderia haver o risco de distorcer aquilo que o original fazia bem. Embora tivesse gostado de ver Joel a desviar-se dos ataques corpo-a-corpo, percebo a razão porque este tipo de mecânicas não foram introduzidas. Não vale a pena mudar o que funciona bem, além de que Ellie em The Last of Us Part 2, devido aos inimigos que rastreiam os seus movimentos e ao maior desafio que enfrenta, precisa imenso dessas mecânicas. Mesmo tematicamente os dois jogos são demasiado diferentes para terem exatamente a mesma jogabilidade.

Dito isto, existem melhorias gerais. Em primeiro lugar, a IA dos inimigos. Diria que a IA dos inimigos humanos neste remake está próxima daquilo que vimos em The Last of Us Part 2. Eles são mais cautelosos na hora de investigar um barulho e quando chegam ao destino continuam a patrulhar sem ficarem especados a olhar para o chão. Durante a patrulha, olham em redor à procura de algo suspeito. Em situações de combate, não se acanham de tentar flanquear. Aliás, não me lembro de ter sido tantas vezes flanqueado no original como fui neste remake para a PS5. Isto foi particularmente notório no hotel e na última secção do jogo, onde fui apanhado desprevenido algumas vezes. Agora, tal como em The Last of Us Part 2, é preciso ter uma maior consciência do posicionamento dos inimigos e não ficar parado demasiado tempo no mesmo local. A IA dos nosso companheiros também foi melhorada. No original tinham o hábito de passar à frente dos inimigos, mas em The Last of Us Part 1 isso foi substâncialmente melhorado e agora esforçam-se mais para permanecerem escondidos.

Outro aspeto melhorado diz respeito às animações. Joel viu o seu leque de animações expandido e conta também com o sistema Motion Matching, introduzido em The Last of Us Part 2. De forma simplificada, este sistema escolhe a melhor animação para cada situação e faz com que a transição entre movimentos seja fluida. No jogo original, era possível atirar um objeto em movimento, mas ao fazer isso, a personagem parava por instantes. Neste remake, é possível atirar um objeto enquanto corre e atacar o inimigo enquanto está atordoado de forma completamente fluida. Se jogaram ou viram alguma jogabilidade de The Last of Us Part 2, estão certamente familiarizados com este tipo de coisa. O controlo das armas é igualmente muito semelhante ao que se pode encontrar na sequela. Importa também mencionar a inclusão de alguns detalhes que acrescentam uma maior profundidade à experiência, como alguns infetados a rastejarem após terem sido atingidos, o desmembramento dos inimigos, e a forma como o cenário reage às explosões.

Como não poderia deixar de ser, o jogo conta com suporte para as funcionalidades do DualSense, tanto para os gatilhos adaptativos como para o feedback háptico. Na geração passada tinha o hábito de desligar a vibração do comando, mas na atual geração, o tipo de vibração proporcionado pelo DualSense tem aumentado o nível de imersão. No caso do The Last of Us Part 1, a vibração consegue simular as gotas da chuva ou o trovejar, assim como outros sons ambientais. Diga-se de passagem que a componente sonora foi aprimorada e os sons dos infetados, em particular dos Clickers, é mais arrepiante que nunca. Por falar em vibração, uma das várias dezenas de opções de acessibilidade inclui a possibilidade de fazer com que o diálogo seja transmitido pelo feedback háptico com o intuito de proporcionar a quem tem problemas de audição uma forma de perceber o tom em que uma linha de diálogo é passada. É realmente fantástico.

Outras opções incluem tamanho de letra e mais ajustes nas legendas, ajuste no tamanho do HUD, descrição das cinemáticas, ajudas sonoras de combate e exploração transversal, possibilidade de passar os puzzles à frente, controlos alternativos, e muitas outras coisas. Algo muito útil para todos, quer tenham ou não qualquer problema físico, é a opção de aumentar um pouco o campo de visão e a distância entre a personagem e a câmara. Além disso, é igualmente muito útil ativar a opção auto pick up, que faz com que a personagem apanhe automaticamente os materiais que estão ao pé de si sem haver a necessidade de pressionar frequentemente no triângulo.

Muita tinta correu sobre a existência deste projeto e certamente muita ainda irá correr. Será um problema assim tão grande haver uma melhor e mais moderna versão de um grande jogo? Não. Esta foi a terceira vez que revivi a jornada de Joel e Ellie do início ao fim e, apesar de não ter tido a surpresa que teve a primeira vez, por razões óbvias, foi a minha favorita. O impacto que a maior fidelidade visual, os novos modelos das personagens e as melhorias nas expressões faciais tiveram nos momentos marcantes é muito significativa. As personagens parecem humanas e conseguem transmitir uma maior carga emocional. Se combinarmos isto com uma jogabilidade refinada, uma componente sonora aprimorada e dezenas de opções de acessibilidade, The Last of Us Part 1 resulta na derradeira forma de experienciar um dos melhores jogos da última década. Um remake de The Last of Us talvez não tivesse na minha lista de prioridades, mas ainda bem que existe.

Nota editorial: Cópia fornecida pela editora para efeitos de análise.

Veredito

Nota Final - 9.5

9.5

The Last of Us Part 1 pega em muitos elementos introduzidos na sequela e incorpora-os para oferecer uma melhor e modernizada forma de experienciar a aventura de Joel, Ellie e companhia.

User Rating: 2.1 ( 12 votes)

Ricardo Silvestre

É o editor da ZWAME Jogos e faz um pouco de tudo no site. Gosta em particular de jogos de corrida, jogos de luta e RPG's, mas também não diz que não a um bom jogo com loot.
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