Análises

Wasteland 3

Escolhas e consequências.

Versão testada: PlayStation 4 Pro

Quem é fã de RPG’s, mais especificamente CRPG, que são o clássico estilo RPG de PC com uma câmara top-down e trama complexa, provavelmente já deve ter ouvido o nome Brian Fargo. Fargo trabalhou em muitos projectos ao longo das décadas, incluindo os dois anteriores Wasteland, Torment: Tides of Numenera, The Bard’s Tale IV e um pequeno jogo chamado Fallout. Escusado será dizer que ele tem muita experiência neste género de jogos, e agora, esteve encarregue da produção de Wasteland 3.

Wasteland 3 decorre alguns anos após Wasteland 2, porém, não é necessário conhecimento da história dos anteriores jogos da série. Esse conhecimento é importante apenas para entender algumas referências ou easter eggs, mas nada de importante relacionado com a história de Wasteland 3. Um grupo de Rangers do Arizona viaja para Colorado para assinar um acordo de cooperação com o Patriarch, o autoproclamado líder daquela região. Mas durante o caminho, o grupo sofre uma emboscada. Entre os poucos sobreviventes estão as duas personagens pré-definidas ou criadas de raiz da nossa equipa. Quando chegamos ao destino, começamos então a trabalhar na nossa parte do acordo mas, como seria de esperar num jogo deste género, as coisas nem sempre são o que parecem. Durante a aventura encontramos novas facções que, dependendo das nossas acções, tanto nos podem ajudar como nos podem tentar matar. E devido ao cenário escolhido, vamos conhecer muitas personagens excêntricas.

E não poderia deixar de ser um CRPG se não oferecesse escolhas e consequências, e por vezes, essas consequências só aparecem muitas horas mais tarde. Por exemplo, de forma o mais abstracta possível para não enveredar por spoilers, a certa altura temos a tarefa de ir a um local encontrar um determinado dispositivo. Contudo, o desfecho desta parte da missão está dependente de algumas decisões que tomámos anteriormente, incluindo numa sidequest. O desfecho tanto pode ser pacífico como envolver balázios. São estas situações que tornam este género de jogo tão apelativo, porque oferecem uma enorme dimensionalidade à história e ao mundo onde a acção se passa.

No geral, achei a história bastante interessante e senti-me sempre motivado para ver o que iria acontecer nas minhas mais de 50 horas de jogo. Mas um dos aspectos da história de Wasteland 3 que mais gostei foi o facto de ser uma sátira ao “sonho americano” e a alguns aspectos culturais dos Estados Unidos da América, como o enorme foco em religião e em armas, uma combinação que muitas vezes traduz-se em situações e decisões completamente absurdas que vão contra o senso comum, algo bastante visível no contexto actual em que vivemos. O jogo mostra esta crítica em várias alturas da aventura, incluindo na missão que nos leva a Denver pela primeira vez. Na chegada a este destino acontece algo que é um perfeito exemplo disto.

A nível de jogabilidade, Wasteland 3 utiliza um sistema por turnos, em que as personagens utilizam Action Points (AP) para se movimentarem pela arena de combate e para executarem diversas acções. Os cenários desempenham um papel importante nos combates, porque os objectos podem ser usados como cover ou como forma de causar dano adicional, como fazer explodir uma bilha que está perto de um grupo de inimigos. Estes confrontos são tácticos, recompensam um bom planeamento, e quando jogado num nível de dificuldade mais alto, tornam-se muito intensos, onde algumas más decisões podem significar a derrota. Os controlos estão bem adaptados no geral para o uso de comando, mas poderiam ter sido um pouco melhor optimizados para navegar nos menus e poderiam ser um pouco mais responsivos.

Wasteland 3 decorre num mundo pós-apocalíptico, o que significa que os recursos são escassos e os que existem são caros. Isto vale igualmente para as munições. A nossa equipa de 6 elementos pode ter no máximo 4 personagens criadas por nós, e é aconselhado criar personagens com diferentes pontos positivos e diferentes especializações. Desta forma, cobre-se um maior número de hipotéticas situações que possam vir a acontecer, além de que reduz a possibilidade de se ficar sem munições durante um combate. Isto nunca é bom. Ter 2 ou 3 personagens com a mesma arma fará que esse tipo de munições se esgote rapidamente. Ao ter personagens especializadas em diferentes coisas, abrem-se mais portas, incluindo novas opções de diálogo ou até a equipamento. Por exemplo, a minha personagem que utiliza Sniper tem Lockpiking muito alto, que permite arrombar portas, caixas ou contentores, que muitas vezes têm coisas bastante úteis. Por sua vez, a personagem que utiliza armas pesadas, é forte em Explosives e Mechanic, o que lhe permite desactivar armadilhas e fazer reparações a geradores e coisas do género. Neste jogo, tal como é hábito em CRPG’s, não é aconselhado fazer personagens que sejam “jack of all trades”.

Tal como disse anteriormente, demorei mais de 50 horas a terminar o jogo, tendo feito várias missões secundárias. E em Wasteland 3, convém mesmo dar atenção às missões secundárias, não só porque podem oferecer boas recompensas, como novas personagens jogáveis, como também podem ter impacto nas missões principais. E devido às ramificações das nossas decisões, é impossível ver tudo numa playthrough apenas, dando assim um incentivo a uma segunda playthrough com decisões completamente diferentes.

Visualmente, Wasteland 3 é bom para o tipo de jogo que é, mas fica um pouco aquém de outros pesos pesados do género, como Divinity Original Sin 2. Já as músicas encaixam bem neste cenário pós-apocalíptico, e importa salientar que todos os diálogos no jogo têm voice acting, incluindo conteúdo secundário. É de louvar tal esforço. Pelo lado negativo, estão os diversos problemas técnicos. Devido à sua complexidade e grande quantidade de variáveis, os jogos pertencentes ao género CRPG tendem a ser lançados com muitos problemas. Divinity Original Sin 2 foi um desses casos, assim como Pathfinder: Kingmaker, que é actualmente um dos melhores jogos do género, mas que no lançamento original no PC estava completamente enterrado em bugs e problemas.

Falando especificamente de Wasteland 3, os problemas são muitos. Não é uma situação tão má como a do Pathfinder: Kingmaker no lançamento original, mas é preciso ter alguma atenção. Durante a minha playthrough, que foi feita nas versões 1.05 e 1.06, não consegui ajustar o brilho da imagem, em algumas alturas não consegui ver o inventário de um vendedor, não consegui sair do inventário de um vendedor, o que me obrigou a ter de fechar o jogo e a perder algum progresso, não consegui comparar itens no inventário com itens equipados, o som ficou distorcido durante algumas lutas e tive vários crashes. E o modo cooperativo também tem vários problemas. A inXile encontra-se a trabalhar na solução destes problemas, mas por agora, as coisas são o que são.

Wasteland 3 é um bom CRPG, cheio de conteúdo e que oferece muitas escolhas difíceis com consequências imprevisíveis, uma boa dose de personalização das personagens, e combates tácticos que premiam o planeamento. Este é de longe o melhor título da franquia e um jogo que os fãs do género vão apreciar. Peca, no entanto, pela panóplia de problemas técnicos, sendo que alguns podem ser sérios o suficiente para estragar a experiência de jogo. Resta esperar que a inXile corrija estes problemas, para que tudo aquilo que Wasteland 3 faz bem possa ser devidamente experienciado.

Nota editorial: Cópia fornecida pela editora para efeitos de análise.

Veredito

Nota Final - 8.5

8.5

Wasteland 3 é um bom e complexo RPG, com muitas escolhas e consequências, mas que tem alguns problemas técnicos que podem estragar a experiência de jogo.

User Rating: 3.85 ( 1 votes)

Ricardo Silvestre

É o editor da ZWAME Jogos e faz um pouco de tudo no site. Gosta em particular de jogos de corrida, jogos de luta e RPG's, mas também não diz que não a um bom jogo com loot.
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