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Um final feliz para Mass Effect 3?

Mass Effect 3, ou melhor, o seu final, foi algo muito falado e (quase) sempre pelas piores razões. Obviamente, seguem-se alguns spoilers.

Lançado no inicio de Março e sendo o ultimo jogo da trilogia, os fãs (categoria essa em que eu me incluo), esperavam chegar ao fim da história e ver algo digno de uma serie que sempre primou pela sua grande qualidade. A realidade foi bem diferente.

Os finais, estavam cheios de inconsistências, muito confusos e não explicavam da melhor forma o que aconteceu e as consequências das nossas escolhas.

Ora, sendo Mass Effect uma série com um universo tão vasto e bem criado, com personagem credíveis e cativantes e uma história interessante, a Bioware deveria ser a primeira interessada em manter a qualidade bem alta mesmo até ao fim. Não só não o fez, como ainda fez algo bem mais grave…..esqueceu-se das fundações da história da série Mass Effect.

Seja como for, após estes finais, a Bioware foi bastante criticada (Casey Hudson e Mac Walters foram os principais alvos) por em apenas dez minutos, estragar uma história que percorreu três jogos ao longo de cinco anos.

Tal foi a quantidade de críticas, que a Bioware anunciou o DLC Extended Cut, que visava clarificar os eventos do final de Mass Effect 3 e as suas consequências. No entanto, o lançamento deste DLC, não é um “mea culpa” da Bioware. Bem pelo contrário. A ideia que passa, é que os finais originais eram excelentes e a Bioware apenas fez o Extended Cut para calar os fãs mais críticos. É pena tal atitude, já que o Extended Cut não só explica melhor cada um dos finais, como ainda corrige algumas inconsistências. Pelos vistos, os finais originais não eram assim tão perfeitos.

Com o Extended Cut, ficamos a saber o que acontece aos nossos companheiros no momento do ataque do Harbinger, ficamos a saber o porquê de o Joker sair a zona de batalha (grande parte da Frota foge devido ao iminente disparo do Crucible), ficamos a saber que as Mass Relays não explodiram (apenas estão danificadas) e ficamos a saber que a Normandy apenas fica temporariamente presa no planeta desconhecido. Também foi acrescentada uma cena em que o love interest coloca o nome do Shepard no Memorial, enquanto que o resto da equipa presta homenagem. É de facto um bom toque. Para além disto e dos finais bem explicados, a Bioware ainda acrescentou um novo final.

Quem jogou Mass Effect, sabe perfeitamente que Shepard é determinado(a), tem objectivos específicos e luta sempre contra as hipóteses. Quando a Bioware apresenta um final, cujas múltiplas possibilidades nos são dadas por um Spacechild e Shepard facilmente se submete a essas opções, nota-se uma clara falha no canon. Shepard que sempre lutou contra os Reapers, aceita as opções dadas pelo seu líder? Não faz sentido.

Talvez por essa razão, o novo final tenha sido incluído no DLC, embora não consiga saber se o motivo é simplesmente agradar aos fãs ou corrigir algo. Basicamente, temos a opção de rejeitar as três escolhas dadas pelo Starchild, embora isso signifique derrota imediata. Seria interessante, que a quantidade de EMS tivesse acção directa neste final, coisa que não acontece. Por outras palavras, é apenas um gameover com umas cutscenes e créditos. No entanto, e apesar do final não ser feliz, é aquele que mais está em linha com o canon. Shepard, mais uma vez luta contra as hipóteses, sendo que desta vez perde. Em contrapartida, graças ao beacon da Liara, o ciclo seguinte é salvo. Mesmo todo o seu esforço em unir as espécies na luta contra os Reapers ter sido em vão, ainda há a sensação de objectivo cumprido.

Falando dos outros três finais, são um misto de emoções, mesmo após serem melhor explicados.

O Destroy Ending, obriga-nos a sacrificar os seres sintéticos para salvar os orgânicos. Embora não seja perfeito, está em linha com os sacrifícios feitos para conseguir a vitória. No entanto, é algo seco e cru, já que não há reacções marcantes por parte da equipa por terem perdido a EDI e por o esforço em conseguir a paz entre os Geth e os Quarian ter sido em vão.

No Control Ending, Shepard ascende a Reaper, ganhando controlo sobre todos os Reapers, e assim acabar com a guerra, ao mesmo tempo que ajuda na reconstrução e partilha conhecimento. Embora seja o que se pode considerar um happy ending, é difícil imaginar que Shepard aceita transformar-se naquilo que sempre lutou para destruir e que os Reapers dedicaram-se à construção civil.

O Synthesis Ending é, à falta de melhor palavra, ridículo. Primeiro, porque é um tema algo problemático e estranho, que acaba por ser apenas uma ideia demasiado utópica. Depois, porque basicamente retira ao universo Mass Effect, aquilo que ele tem de tão bom….as diferentes espécies, conflitos e culturas. Simplesmente torna algo tão interessante em algo completamente vazio e sem graça. Há hostilidades entre raças? Ok, vamos dar-lhes olhos verdes brilhantes e tudo ficará bem. Neste final, até o chapéu do Joker ganha circuitos. Além disto, o Javik que não gosta de sintéticos, é transformado num? Este final, é exactamente a prova que a Bioware perdeu qualquer ligação com as fundações da série. Um jogo que nos obriga a criar uma linha de dialogo entre os Krogan e os Turian e que nos mete no meio do conflito entre Geth e Quarian não pode acabar num universo cheio de arco íris, cyborgs com olhos verdes e imagens que mais parecem retiradas de um anuncio de fraldas.

Ao menos a Bioware não quis seguir o caminho sugerido da Indocrination Theory, já que isso seria muito pior para a série. Basicamente isso iria implicar algo do género “queriam saber como a história acaba? Esqueçam….era tudo imaginação”. A Indocrination Theory não só significaria a falta de closure, como significaria que o último jogo da trilogia não iria concluir a história. Isso sim, seria muito grave.

E é exactamente neste  aspecto que vejo o ponto positivo no Extended Cut, chegando até a considerar uma boa adição. A Bioware, poderia ter criado algo verdadeiramente novo ou ter dado aos fãs aquilo que eles queriam. Em vez disso, mantiveram-se fiéis à história que eles imaginaram como sendo o final do jogo e da trilogia (independentemente se os finais são bons ou não), e ao mesmo tempo acrescentaram uma nova opção e corrigiram a maioria dos plot holes. Continuam a não ser grandes finais, algo que a trilogia merecia, mas ao menos mostram aquilo que os escritores pretendiam inicialmente. Este são os finais que deveriam ter vindo no jogo a quando do seu lançamento e não lançados três meses depois e graças apenas à enorme quantidade de críticas.

Só espero que isto seja uma lição para a Bioware, e que sirva para tirar as conclusões certas. Bugs ou outro tipo de problemas técnicos que um jogo eventualmente possa ter, não há grande problema em levar actualizações e correcções. No entanto, o mesmo não se deve aplicar à parte narrativa. A história e a forma como esta acaba, tem de estar perfeita logo de inicio, já que as memórias são permanentes e acabam por prejudicar as futuras experiência de jogo.

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