Análises

Super Mario 3D World

A passagem do Mario para 3D no Super Mario 64 foi incontestavelmente bem-sucedida, não só mudou a maneira de jogar e fazer videojogos, como é ainda hoje um dos jogos mais adorados de sempre. No entanto, houve alguma coisa que se perdeu pelo caminho. Apesar de ter ganho imensas capacidades atléticas, havia um ênfase grande na exploração, tornando o Mario 3D em algo diferente dos anteriores jogos da série em que os saltos eram o principal.

Com o Super Mario Galaxy para a Wii, a série aproximou-se das origens, os níveis eram mais lineares e focados em saltos, adoptando temas mais abstractos para ajudar no posicionamento de plataformas.

Super-Mario-3D-World-110Em 2011, a equipa decidiu dar o próximo passo na evolução da série com o Super Mario 3D Land, conseguindo capturar ainda melhor o espírito e estrutura dos Super Mario antigos num jogo a três dimensões.

Super Mario 3D World, como é óbvio, é uma continuação da filosofia e estilo de jogo do 3D Land, continuando a demanda de fazer um Super Mario tridimensional acessível para quem tem problemas com a terceira dimensão, tentando ao mesmo tempo não alienar jogadores mais experientes.

Entrar no jogo à espera de um Galaxy 3 é um erro, se a saga da Wii nos brindava com o épico e grandioso, deixando-nos de boca aberta, 3D World aponta para a diversão pura e deixa-nos com um sorriso rasgado na cara. Mecanicamente também tem as devidas diferenças, nomeadamente o facto de o movimento não ser 100% analógico, ou seja a nossa velocidade não está só dependente do quanto puxamos o analógico, sendo preciso carregar num botão para correr, atingindo a velocidade máximo depois de correr durante um bocado.

Inicialmente é uma alteração estranha, apesar de não serem muito diferente dos controlos do 3D Land, numa consola não portátil é estranho abandonar a precisão e liberdade concedida pelo analógico, um dos maiores avanços trazidos pelo Mario 64.

Apesar de ser uma escolha altamente motivada pela hipótese de se poder usar o comando da Wii que não tem analógico, é algo a que rapidamente nos habituamos e que tem o seu lugar nas mecânicas altamente afinadas do jogo. Saber dominar as personagens a todas as velocidades é essencial para tirar o máximo do jogo, sendo especialmente importante conseguir atingir a velocidade máxima no momento certo para fazer saltos maiores. Todos sabemos que um verdadeiro profissional de Super Mario tem sempre o dedo no botão de correr, claro.

Super-Mario-3D-World-3A grande novidade é a possibilidade de jogar localmente a quatro jogadores, sendo este o primeiro Super Mario em 3D que permite jogar o modo principal com outras pessoas. Os jogadores podem-se juntar em qualquer altura, podendo usar o Gamepad, Pro Controller, Classic Controller Pro, Wii Remote ou o Wii Remote e o Nunchuck.

Tal como nos New Super Mario Bros, jogar com amigos é divertidíssimo e altamente caótico, conseguindo um excelente equilíbrio entre cooperação e competição sendo possível trabalhar em equipa para ajudar os outros a chegar a sítios elevados ou atirar alguém para um precipício e roubar power-ups. No fim dos níveis são atribuídas pontuações aos jogadores, quem ficar em primeiro anda com uma coroa no próximo nível que lhe dá pontos extra se a mantiver até ao fim. Ao levar dano ou com um ataque dos outros jogadores, a coroa cai ao chão, começando a competição para ver quem fica com ela. É um pormenor extremamente engraçado, que não só anima o modo multijogador como finalmente dá algum uso à pontuação obtida nos níveis.

Estão disponíveis desde o início o Mario, o Luigi, o Toad e a Peach, cada um com as suas características muito próprias. O Mario é a personagem mais equilibrada sem grandes vantagens ou desvantagens, é o canalizador que conhecemos desde sempre, já o Luigi não tem tanta aderência e precisão, mas salta mais alto e mais longe, tendo um arco de salto mais pronunciado. O Toad salta menos e cai mais rápido, mas é a personagem mais rápida e a Princesa Peach corre devagar, só que consegue planar no ar durante um bocado.

Os níveis estão equilibrados de modo a que qualquer personagem os consega passar e além destas diferenças permitirem várias maneiras de jogar e passar os níveis, acabam por funcionar de certo modo como um nível de dificuldade, sendo a Peach a personagem mais fácil para realizar saltos difíceis apesar de não conseguir fazer os melhores tempos e o Toad o mais complicado, conseguindo no entanto acabar os níveis mais rápido. Mesmo a jogar sozinhos, podemos usar a personagem que quisermos, ao estilo do Super Mario Bros. 2 que também tinha o mesmo plantel.

Apesar de permitir quatro jogadores, o jogo não sofre por isso, sendo aliás melhor a solo apesar de perder a diversão inerente à ramboia de jogar com amigos. Com dois jogadores minimamente coordenados a confusão não é muita, mas com três ou quatro, às vezes o ecrã fica demasiado caótico sendo complicado de perceber o que é que se passa e não é difícil deixar alguém para fora da câmera sem querer. Também é fácil ver as vidas a desaparecer num instante, visto que elas são partilhadas por todos os jogadores. Não deixando de ser extremamente divertido jogar com várias pessoas, é mais fácil apreciar os detalhes e passar níveis complicados sozinho.

ibqfSFUm74MjmUEmprestada dos New Super Mario Bros vem a hipótese de um jogador se meter dentro de uma bolha quando as coisas estão demasiado complicadas, acompanhando automaticamente os outros jogadores. Aqui há algumas diferenças, não só pode ser o jogador a rebentar a própria bolha, como não é possível activá-la a meio de um salto, impedindo uma pessoa de se salvar quando está quase a morrer. Não é uma mudança muito lógica, tendo em conta que a bolha existe para ajudar jogadores inexperientes.

Os níveis estão brilhantemente desenhados, cheios de plataformas, obstáculos e inimigos muito bem posicionados para conferir ritmo à progressão, quer se esteja a jogar sozinho ou com companhia. Cada nível tem três estrelas escondidas e um carimbo, adicionando desafios extra para quem quer completar verdadeiramente o jogo, sendo preciso ter atenção aos níveis e explorá-los com perícia para apanhar tudo.

Os power-ups não podiam falhar, havendo uma variedade deles com efeitos completamente diferentes para ajudar a completar os níveis ou chegar a sítios difíceis de chegar. Claro que o cogumelo e a flor de fogo estão de volta, assim como o fato de Tanooki, mas a grande novidade é o fato de gato que nos permite correr mais rápido, atacar com as garras e subir paredes durante um bocado, alterando a maneira de interagir com os níveis. Além disso, é adorável e eu nem sou uma pessoa de gatos.

Um novo power-up que é absolutamente delicioso é a cereja dupla que cria um duplicado da nossa personagem, deixando-nos a controlar os dois de uma vez. Quem diz dois, diz três, quatro ou mais, apanhar várias cerejas e controlar um batalhão é hilariante, especialmente com vários jogadores. Estas e outras transformações não são tão fáceis de manter como no 3D Land, não prejudicando tanto o equilíbrio do jogo como o fato de Tanooki fazia.

Com as várias personagens, power-ups e o modo multijogador, o jogo oferece imensos incentivos para repetir níveis, podendo jogar sempre de maneira diferente.

i2LgiAp4IePrCTambém podemos ligar a opção de ver “fantasmas” de outros jogadores que jogaram os níveis antes de nós, o que serve não só para competir com os tempos deles mas também para poder observar o seu comportamento, o que pode ajudar a descobrir segredos ou atalhos. Com esta opção, mesmo quando jogamos a solo, não temos que estar sozinhos nos níveis.

Os carimbos não são apenas coleccionáveis, cada um é um desenho pré-feito que podemos usar nos posts do Miiverse na comunidade deste jogo, sendo até possível apagar e adicionar coisas ao desenho. Os desenhos e mensagens postos no Miiverse aparecem nos ecrãs de transição dos níveis e nos mapa,as integrando a comunidade com o jogo.

Apesar de serem muito raros, alguns níveis necessitam no Gamepad por usarem o ecrã táctil e o microfone. Não são utilizações muito excitantes, estão lá um bocado só para não dizerem que o jogo não dá uso às capacidades do comando, mas não deixa de ser ligeiramente interessante coordenar o uso dos botões, ecrã táctil e microfone para onde temos que soprar. No entanto, em qualquer nível pode-se usar o Gamepad para dar uma ajudinha, paralisando os inimigos, desviando projécteis ou soprando para afastar Goombas pequenos por exemplo.

Em cada mundo há também um nível em que controlamos um Toad explorador num pequeno mapa em que temos que orientar a câmera para mudar a perspectiva e poder orientar o Toad até todas as estrelas. O problema é que este explorador está demasiado carregado com a mochila e não consegue saltar, tornando estes níveis em puzzles onde temos que ver tudo do ângulo certo para descobrir o caminho e o timing é importante para não sermos atacados. É um conceito divertido que até merece um jogo só para si.

A dificuldade aumenta gradualmente, no início é fácil chegar ao fim dos níveis, mas mais para a frente o jogo é capaz de desafiar seriamente até o mais hábil dos jogadores. O verdadeiro desafio está em passar o jogo a 100%, chegar ao topo da bandeira de todos os níveis, apanhando todas as estrelas e carimbos e passando os níveis com todas as personagens. Sempre que o jogo parece estar a acabar, algo de novo aparece, algo que inicialmente parece durar 10 horas facilmente passa para as 30 ou mais, isto sem falar das imensas horas que o modo multijogador pode adicionar.

ioOor1kV7Ak5gOs níveis não são só bem desenhados, são também incrivelmente bonitos. Super Mario 3D World é de longe o jogo mais graficamente impressionante da Wii U, conseguindo com a ajuda de uma direcção artística de topo, envergonhar até jogos a correr em hardware bem mais potente. A imagem é limpa, os modelos óptimos e a iluminação fantástica, havendo vários efeitos lindíssimos que conferem um visual único ao jogo. Apesar de ser em 720p o jogo corre sempre a 60 fps, mesmo com quatro jogadores ao mesmo tempo e imensas coisas a passarem-se no ecrã, nunca notei uma quebra no frame rate.

O jogo está repleto de detalhes, como as pegadas de gato que deixamos para trás, os Goombas que saltam quando se surpreendem ao nos verem ou os sprites do Luigi escondidos em vários sítios do jogo em celebração do Ano do Luigi. A utilização do gamepad também esconde vários pormenores engraçados como poder fazer desenhos na areia, fazer crescer flores na relva ou espalhar toppings nos níveis feitos de chocolate. A imensa atenção aos detalhes e às coisas pequenas tornam o jogo uma maravilha de jogar e descobrir, sendo difícil não sorrir ou soltar um “aaaaaaw” de vez em quando.

Se não é surpresa que a equipa por detrás do Galaxy domina o aspecto gráfico, também não o deverá ser que compuseram mais uma banda sonora brilhante. Abandonando em parte os grandiosos temas orquestrados, agora as músicas são mais viradas para o Big Band, também isto uma aproximação às origens, se bem que desta vez as músicas foram gravadas com instrumentos a sério. Não se ficando por apenas uma ou duas faixas boas, cada uma que aparece é um deleite para os ouvidos, um feito com mérito visto ser um repertório bastante extenso.

irGWpxqw623KmA EAD Tokyo finalmente concretizou de forma admirável o objectivo de longa data de criar um Mario 3D para vários jogadores, ao mesmo tempo que aperfeiçoa a fórmula do 3D Land que trouxe a estrutura clássica 2D para as três dimensões, isto tudo sem se perder pelo caminho. É um jogo que tem tantas ideias que se dá ao luxo de não as repetir muitas vezes, com níveis tão bem desenhados e controlos tão refinados que convida vários tipos de jogadores: os inexperientes e os veteranos, os que jogam sozinhos e os que gostam de companhia, os que cooperam e os que competem.

Fruto do trabalho de uma equipa com uma mestria sem igual, Super Mario 3D World pertence a um patamar superior que poucos títulos alcançam, é diversão pura em forma de videojogo. Indispensável.

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